Bengalas da ilusão

violencia

Cresci em cidade pequena, mas era comum que viesse à cidade grande (mais precisamente ao Rio de Janeiro) pelo menos uma vez por mês. E me encantava com o que via, sobretudo as paisagens. Hoje, após alguns anos morando em Niterói, percebo que a beleza natural, a infinidade de espaços abertos, as possibilidades culturais e o dinamismo econômico atual são como bengalas que criam uma ilusão de que estamos vivendo bem. Mas a violência assusta.

Ainda que, de fato, os níveis de homicídios per capita no Rio de Janeiro entre 2008 e 2012 sejam os mesmos de minha cidade natal, Miguel Pereira (que parece ser muito mais tranquila), e que a sensação de insegurança se agrave com a cobertura midiática da temática “segurança pública/violência”, espanta a quantidade de notícias estarrecedoras de morte de policiais, morte de civis, morte de crianças, abordagens policiais inadequadas, tiro, porrada, bomba e balas perdidas.

O cenário combina uma polícia mal-treinada, que atira em meio ao trânsito e ao fluxo de pedestres e que faz muito pior com os moradores de favelas, uma política absurdamente corrupta e vendida e a marginalidade desesperada em busca de aumentar o seu poder e seu controle territorial, crianças nas ruas sem qualquer política para que tenham acesso à educação e reintegração à sociedade.

E as pessoas ainda continuam batendo palmas para o pôr-do-sol, como verdadeiros retardados.
E não questionam o modelo das UPPs.
E não se sensibilizam com os pedintes nas ruas.
E não se sensibilizam com as crianças mortas pelos PMs no Sumaré.
E não se sensibilizam com corpos sendo arrastados por viaturas.
E não sabem o que se passa na vida das crianças (talvez órfãs, em sentido literal ou figurado) que são aliciadas pelo tráfico (como já escrevi aqui).
E não compreendem que os policiais vivem sob pressão e têm um treinamento completamente inadequado.
E seguem ostentando.
E seguem consumindo.
E seguem proferindo palavras de preconceito contra o Bolsa Família.
E seguem se dizendo contra o desarmamento sem saber que a maioria dessas armas que estão matando e assustando são nacionais e adquiridas por civis (conforme esta notícia).
E não percebem que isso está tudo ligado, e então reclamam da violência (quando não põem a culpa na Dilma, indevidamente).

A verdade é que eu não vejo qualquer perspectiva de melhoria nessa sensação de insegurança no curto a médio prazo. E assim vamos mantendo o pensamento otimista e egoísta de que “não serei eu que estarei na hora errada, no lugar errado”. E vamos rezando para que estejamos seguros. Como se aqueles que morrem também não o fizessem.

E o sistema se mantém de pé. Pois “só acontece com os outros”.

(Em breve escreverei um texto com uma análise mais detalhada acerca da evolução do Rio de Janeiro nos últimos anos, em diversos aspectos)

Categoria(s): Escrito por Matheus, Estilo de Vida, Política, Serviços Públicos

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