As vantagens da política de “campeões nacionais” do BNDES

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“Se o escândalo na Petrobras é grave, imagina quando resolverem investigar o BNDES”. Essa é uma das frases de senso comum mais repetidas ultimamente pelos “papagaios de plantão”. Algumas críticas são feitas pela oposição à gestão do banco. As duas principais englobam os acordos com outros países latino-americanos (como Cuba e Venezuela) e a política de formação de grandes empresas globais de capital nacional, ou política de “campeões nacionais”, adotada pelo banco entre 2007 e 2013.

É sobre a segunda que desejo falar. Muito se argumenta que foi uma política que privilegiou poucas empresas e concentrou mercados. Não são argumentos infundados. Mas as operações são justificáveis, como discutiremos.

Entre as empresas que receberam recursos quando iniciou-se o processo de financiamento a grandes players globais, pode-se destacar Friboi e Brasil Foods (proteína animal), Ambev (bebidas), Fibria (celulose e papel).

Algumas perguntas podem ser feitas:

Porque apenas estas empresas receberam tantos recursos?

Foi mais um mecanismo de corrupção por meio do “privilégio aos amigos”?

Este mecanismo não pode resultar em monopólios nos mercados?

São perguntas cabíveis, sem dúvidas. Mas há uma série de razões para a adoção da política de “campeões nacionais”, como segue:

1) Os recursos são escassos. Não seria possível financiar, com os recursos disponíveis, todas as empresas, de todos os setores, de todos os portes e de todas as regiões do país;

2) Atender a aspectos industrialmente estratégicos para o país.

É o caso dos empréstimos para que a Perdigão comprasse a Sadia. Havia o risco de a Sadia ser comprada por uma empresa de capital estrangeiro, por exemplo. E isso seria prejudicial não somente pela falta do capital nacional, mas também pelo fato de serem empresas que têm uma forte política de compras junto a pequenos produtores brasileiros.

Outro aspecto é a necessidade de acesso a canais adequados de distribuição e comercialização no exterior. Somente por meio destes investimentos foi possível aumentar a internacionalização destas grandes empresas nacionais. Fenômeno semelhante foi adotado pela Coréia do Sul com seus chaebols, como Samsung, LG e Hyundai, que hoje dominam mercados mundiais;

3) Há fenômenos globais que tornaram estratégicos alguns investimentos.

O principal deles é a urbanização das nações em desenvolvimento. Com o aumento da população urbana destas nações (com as quais fazemos muitos negócios), consome-se mais proteína animal (Friboi e BRF), bebidas industrializadas (Ambev) e imprime-se mais papel (Fibria);

4) Alguns mercados, sobretudo os de varejo, são extremamente concentrados (tanto em âmbito global como em âmbito nacional), ou seja, poucas empresas os dominam quase por completo. Distribuir o dinheiro entre diversas empresas menores (que fossem 10, por exemplo), resultaria em 10 empresas tendendo ao fracasso, uma vez que não estariam em condições de competição com as empresas de grande porte de outros países.

Alguns dos principais exemplos de mercados concentrados estão exatamente nos bens de consumo não-duráveis: alimentos, bebidas e perfumaria, por exemplo.

Devido em parte à estratégia de “pick winners“, foi possível gerar empresas com economias de escala suficiente para competir em nível global nos setores em que estavam. Empresas nacionais (ou de capital nacional) estão hoje entre líderes globais do mercado na produção de bovinos, frango, celulose (principalmente de fibra curta) e cerveja.

Alguns dos países de maior destaque industrial no mundo, hoje, adotaram políticas similares. O caso mais concreto é o da Coreia do Sul. A formação dos grandes chaebols levou algumas empresas (como a Daewoo) à falência, mas as mais competitivas, como LG, Samsung e Hyundai não só sobreviveram, como dominam hoje inúmeros segmentos de tecnologia de ponta. Outro caso é o chinês: apesar das empresas chinesas não se destacarem em segmentos de alta tecnologia, alguns conglomerados financiados pela política de “pick winners” adquiriram tamanha escala que, mesmo quando comparados a outros locais com problemas ambientais e trabalhistas, seus produtos mantinham preços competitivos.

As possíveis distorções

Enxergo duas possíveis distorções no modelo proposto.

A primeira delas é a concentração de mercado e surgimento de oligopólios. De fato é um risco do modelo. Mas que se justifica pelo alto grau de concentração e competitividade dos setores em que as referidas empresas se encontram.

A segunda distorção é o não retorno do lucro resultante da operação das empresas para o Brasil. E neste sentido, faz-se necessário um controle maior. Basta ver a quantidade de empresas registradas na Holanda, com contas na Suíça ou a sonegação detectada recentemente pela Operação Zelotes.

Categoria(s): Economia, Escrito por Matheus

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