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Sobre viver. Sobreviver

O que é viver?

Gonzaguinha diz que o sentido da vida é o que todos procuram. E que ninguém acha. Seus versos são perfeitos. E, no fim das contas, ficamos apenas com a pureza da resposta das crianças.

Empresários se frustram ao final de suas “vidas” e sempre dizem se arrepender de não ter tido tempo para estar com suas famílias.

Aristóteles, Clarice Lispector, Chaplin, Bob Marley, Pedro Bial e cada um de nós, seja num bar, num livro ou num momento introspectivo, já refletiram sobre a vida. Certamente muito melhor do que eu o faria.

Eduardo Marinho, pra mim numa das definições mais incríveis, diz que viver é, sobretudo, receber afeto. Quer venha de seus filhos, quer venha de seus amigos, quer venha de seus amores, quer venha de seus cães.

Viver, por mais complexo que seja, é tão simples quanto Eduardo definiu: é receber afeto.

Uma pena que tantas paredes de escritórios e das almas impossibilitem as pessoas de perceberem isso. Pobres mentes, que ainda chamam de imaturas quem já percebeu o valor do afeto.

Mas minha reflexão, hoje, não é sobre viver, é sobreviver.

Toda segunda, quarta e quinta dou aulas à noite. Bem distante de minha casa. Na volta, pego um metrô até Botafogo e, dali, um ônibus para Niterói.

E tenho percebido nesses dias é que ali estão, cotidianamente, moradores de rua. Como em todo o estado do Rio a crise se agrava, os pedintes, aumentam. E vão formando seus vínculos. Amizades, conversas, amigos de 4 patas, novas relações sociais. Ali, a 5 metros do ponto de ônibus, por onde um fluxo significativo de pessoas passa.

Muitos, vão pelo outro lado quando se deparam com aqueles mulatos e mulatas que não se diferenciam muito das mulatas de Di Cavalcanti, a não ser pelo fato de alguns estarem, talvez, alterados pelo efeito da pedra.

Na primeira vez que os vi ali, um misto de estranhamento e preconceito me fizeram ter medo. Mas passei por perto deles, sem nenhum problema. E assim já foram umas 10 passagens por ali. Meu coração cortado de tristeza. Das lágrimas que eu segurava no peito, algumas escorreram. Algumas das vezes em que passei por ali eu até mesmo implorei pra que alguém viesse me pedir ajuda. Ninguém nunca me abordou.

Hoje, ao passar por ali, notava a população ainda maior. Nunca vi alguém parar por ali, seja para dar dinheiro, seja para bater um papo. Nem sei se o pessoal do RIO invisível já passou por ali.

Hoje me esqueci das aulas que eu precisava preparar e pensei que certamente estariam passando fome. Entrei no Burger King, bem próximo, e me deparei com uma promoção: 2 hamburgueres por 15 reais. Comprei 6. Pedi para não colocarem picles. Comi um, embalei 5 para viagem.

Levei para eles. Um garotinho falou que sempre quis daquele sanduíche, que parecia saboroso. Os corpos, em polvorosa, clamavam por comida. Sugerindo calma, entreguei toda a comida a um senhor, um pouco mais idoso, e pedi que distribuísse. Vi ali sorrisos, desespero, felicidade, gratidão, espanto. Um rapaz quis apertar minhas mãos. Não neguei, mas saí dali à procura de um banheiro ou um álcool gel.

Sempre passava por ali com o coração doído. Hoje, recebi de estranhos, afeto. Saí dali com o coração partido por ver seres humanos numa situação que pode ser qualquer coisa, menos humana. Saber que ali existem tantas vivências, sonhos, alegrias, frustrações, que desconheço. Que, se estão ali, não é apenas fruto de decisões unilaterais de um monte de “vagabundos” que não querem nada na vida. Enxergava, em cada um deles, Cristo, Maomé, Buda.

Nessas horas, sinto uma forte sensação de raiva. Dos políticos. Da sociedade que grita contra cotas, contra o Bolsa Família. Raiva de quem grita Bolsomito, de quem defende o absurdo que foi feito na Cracolândia. Das pessoas que não têm a menor capacidade de praticar empatia quando teriam todas as condições para isso.

Meus amigos, não sei se vocês estarão ali na segunda. Não sei se vocês estarão aqui, fisicamente e metafisicamente falando, na semana que vem. Acho que vocês já não são mais parte da nossa sociedade, sob a ótica dos direitos, há algum tempo. Mas vocês estarão, certamente, no meu coração, em mais este momento que guardarei com muito carinho. Nosso convívio foi pouco, mas certamente vocês já tocaram a minha alma. Paz e bem!

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Lua

lua
Tentando fotografar essa linda lua de sábado (mas foto de celular nunca sai boa) e essas estrelas que agora enxergo dos fundos de minha casa. Os astros do universo, pra mim, são o maior indicativo de entrelaço no mundo. Porque, primeiro, representam a nossa conexão com Deus e de Deus conosco. Mesmo quem não crê que Deus existe reconhece que tamanha grandiosidade não pode ter outra origem senão divina, e Deus sabe que não há maneira mais simples para demonstrar a nós seu amor. Porque esta linguagem é universal: independente de religião e de onde se esteja, ali Deus aparece para judeus, cristãos, budistas, espíritas, muçulmanos, ateus e admiradores de Espinoza.
Segundo, porque representa uma das coisas mais incríveis da vida, que é essa confusão entre passado, presente e futuro, cujas sensações tanto se misturam no dia a dia. Pensar que a luz que vemos hoje pode ter sido emitida há milhares de anos, que pessoas queridas da infância viraram “estrelinhas” lá no céu, que um dia o homem poderá viajar até lá, que o que lá ocorre agora é desconhecido e só veremos “a luz” disso daqui a alguns anos (ou talvez nunca vejamos).
Terceiro, porque estas luzes, neste exato momento, estão sendo avistadas por gente de todo o mundo. E esse encanto coincidente nada mais é que mentes e almas interligadas, mesmo que nunca tenham tido contato. Amizades, projetos para acabar com a fome na África, amores desencontrados, futuros líderes mundiais que um dia poderão guerrear ou assinar a paz mundial, doadores brasileiros de medula óssea, seus receptores filipinos, boas conversas, negros e brancos, pessoas que perderam entes queridos, crianças curiosas que avistam o céu pela primeira vez, mamães que acabam de descobrir que receberam esta missão.
Tantos dramas, tantas felicidades, tantos sentimentos, de quem agora olha para o céu. Talvez esta seja minha maior admiração pelo Universo: anula quaisquer dimensões ou diferenças de espaço-tempo. É o que não pode ser mais nada senão divino conectando o que não é nada mais nada menos que, apenas, humano.

 

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