As óticas por trás da desindustrialização brasileira

iron-industry

A discussão sobre livros, filmes e músicas se difere bastante da discussão de temas econômicos. Você pode gostar ou não de um filme. Você pode gostar de ouvir rock ou sertanejo. Pode gostar de um ritmo e desgostar de outro. Um roqueiro pode não querer se informar melhor sobre as origens do sertanejo. Um pagodeiro pode não querer discutir quem foi o melhor baterista de todos os tempos.

O debate econômico, por outro lado, é pautado por duas correntes bastantes distintas (e suas variações), ambas com a contribuição de importantes figuras, muitos laureados com o Prêmio Nobel. É fundamental compreender que existem duas correntes opostas e que, por isso, em economia não existe “certo” ou “errado”. De um lado, a corrente clássica e suas vertentes monetaristas e neoliberais. Do outro, o keynesianismo e as vertentes desenvolvimentista e do bem-estar social.

Nas últimas eleições, um dos pontos levantados (corretamente) pelo candidato Aécio Neves foi a desindustrialização do Brasil. Naquele momento, levantei neste espaço alguns de meus questionamentos ao então candidato. Há um consenso de que uma economia industrializada tem maior produtividade e empregos com melhores salários, contribuindo melhor para o crescimento do país. Andei lendo bastante sobre a situação e decidi escrever este texto.

É fato que o Brasil sofre alguns efeitos do fenômeno da desindustrialização. Não só o Brasil sofre desse mal, no entanto. A concorrência desleal chinesa e o boom de outras economias asiáticas como as dos “Tigres” afetou os países latino-americanos, africanos e europeus (com a rara exceção alemã).

Uma das questões centrais do debate, no entanto, é que não faltaram esforços na tentativa de fortalecer o segmento industrial no Brasil. O ciclo vivido pelo Brasil no período 2003-2010 consolidou os avanços que se faziam fundamentais para o país: queda significativa da pobreza, formação de um forte mercado interno e economia cada vez mais próxima do pleno emprego. A partir daí, pela visão de Schumpeter, seria necessária uma inovação disruptiva significativa que consolidasse um novo ciclo econômico. No entanto, dificilmente essa inovação se daria em um ambiente de investimentos ainda incipientes em educação, ciência e tecnologia, apesar de crescentes.

O que Dilma fez, naquele momento, foi atender a parte dos discursos dos economistas desenvolvimentistas e liberais ao mesmo tempo. Para atender aos anseios keynesianos, o financiamento e apoio governamentais aumentaram substancialmente, a taxa de juros foi reduzida com o intuito de incentivar o investimento e foi criado o Plano Brasil Maior. Por outro lado, segundo os economistas liberais, a principal medida deveria ser a redução do Custo Brasil. Dilma o fez através de medidas como a desoneração das folhas de pagamento, redução das alíquotas de IPI e adiamento do reajuste das tarifas públicas.

Dilma ouviu as orientações das duas correntes econômicas. Implementou-as conjuntamente. A inovação radical não veio, a “doença brasileira” se agravou e a indústria se reconfigurou em direção à especialização regressiva. Surgiram as críticas. De ambos os lados.

Para os liberais, os problemas seriam o aumento do protecionismo, o favorecimento aos “campeões nacionais” e a baixa produtividade. Para os desenvolvimentistas, seriam a timidez das políticas industriais e de C&T, a insuficiência de demanda dos EUA/Europa e a renúncia fiscal (de mais de R$ 100 bilhões em 2014, decorrente das inúmeras ações de redução de impostos) em um momento de desaceleração da economia global.

-

Além de fazer uma breve análise sobre a desindustrialização no Brasil, um dos intuitos deste texto foi deixar claro que, em economia, não existe certo ou errado. Existem diferentes escolas de pensamento, que proporão soluções diferentes para o mesmo problema. Às vezes, a solução de uma escola dá certo, a de outra não. Ou o contrário. Às vezes, ambas dão certo. Às vezes, ambas, mesmo implementadas conjuntamente, não dão certo. Há uma série de fatores, políticos, externos e internos, que fogem ao controle dos governos centrais. Outros, se controlados, afetarão variáveis fundamentais (por exemplo: uma regra mais flexível para o salário mínimo prejudicaria quem o recebe, mas tornaria nossa indústria mais controlada). Compreender a complexidade do debate é essencial para evitar discursos rasos.

PS: esta entrevista é bastante elucidativa no que se refere às questões de industrialização do Brasil e do mundo.

Categoria(s): Economia, Escrito por Matheus

Loading Disqus Comments ...
Loading Facebook Comments ...