Um guia para leigos (parte 2): Eduardo Cunha

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Dando continuidade à proposta do último texto (Um gua para leigos – parte 1), pretendo tentar trazer para vocês as raízes históricas e políticas de nosso país que culminaram na chegada de Eduardo Cunha à presidência da Câmara. De antemão, peço desculpas aos amigos historiadores por eventuais erros e omissões.

Para que se compreenda qualquer contexto num cenário mundial, seria necessário voltar alguns anos na história. Poderia analisar a partir da chegada da Corte de Portugal ao Brasil, a partir da Velha República ou a partir da Era Vargas, mas começarei a análise a partir dos tempos da ditadura militar. No contexto mundial, deixarei meus interlocutores situados sobre alguns aspectos do cristianismo no mundo.

É inegável que Eduardo Cunha chegou ao poder, em parte, por suas habilidades políticas. Também é inegável que seu envolvimento em casos de corrupção possa tê-lo favorecido na medida em que podia lançar mão da chantagem para alçar vôos mais altos. No entanto, há diversos outros aspectos que contribuíram para sua ascensão ao poder, estando o principal deles ligado ao crescimento do neopentecostalismo no Brasil.

Faz-se necessário conhecer alguns aspectos religiosos do cristianismo no mundo. O Brasil (e grande parte da América Latina) teve uma colonização majoritariamente católica, enquanto os Estados Unidos receberam colonização protestante. Enquanto a educação católica era voltada apenas às elites, a colonização protestante previa a educação dada a todos. Apesar de inúmeros outros fatores, este também ajuda explicar as razões do maior desenvolvimento norte-americano. Já comentei sobre o assunto aqui no blog.

Aqui no Brasil, entretanto, o protestantismo se diferencia imensamente do protestantismo americano. Há religiões protestantes mais tradicionais, como nos EUA, mas essas constituem um percentual pequeno dos fiéis. Hoje a maioria dos evangélicos brasileiros seguem correntes do pentecostalismo e do neopentecostalismo. Eduardo Cunha chegou ao poder, em grande parte, por conta desses fiéis, que apresentam forte tendência à não-dissociação de religião e política, votando nos candidatos indicados por seus “líderes espirituais”. Dentre inúmeros outros, um deles, Eduardo Cunha.

Em entrevista ao Fantástico em 2013, quando do encerramento da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, o Papa Francisco ressaltou, sabiamente, que uma das causas da perda de fiéis católicos na América Latina era o fato de a Igreja não estar muito próxima das grandes periferias, onde as religiões pentecostais acabaram penetrando.

Outra razão, não citada pelo Papa na circunstância da entrevista, tem a ver com a ditadura militar. Durante os anos de chumbo, uma grande parte dos líderes da Igreja Católica que se dedicava à questão da pobreza, os teólogos da libertação, se exilaram em outros países. A teologia da libertação perdeu suas forças ali, e principalmente a capacidade de se aproximar dos mais excluídos. O mesmo processo se repetiu em boa parte da América Latina.

No início dos anos 90, pouco após o fim da ditadura, o Brasil continuava bastante desigual. Nesse período, a ideologia neoliberal, antes restrita basicamente a Reagan e Thatcher, começou a se espalhar pelo mundo, e com ela se difundia a ideia da meritocracia, de que bastava querer algo para que se pudesse conquistá-lo.

Como durante o período da ditadura a Igreja Católica acabou se afastando da população mais pobre e o discurso do “você pode, basta querer” se propagava, a periferia tornou-se fértil para a propagação do pentecostalismo e todos os seus benefícios (de certa forma, ajudou a tirar muita gente do mundo das drogas e da criminalidade) e malefícios (extorsão de fiéis, clientelismo, práticas abusivas). A teologia da prosperidade, que prega que “Deus me dará casa e carro do ano”, foi a mesma que ajudou a dar poder (e/ou capacidade de barganha) a Eduardo Cunha, Silas Malafaia, Marco Feliciano, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, entre outros.

Some-se a isso, ainda, o sistema político brasileiro e o (agora extinto) financiamento privado de campanha. Sabendo talvez que Eduardo Cunha fosse um dos mais fiéis discípulos de Maquiavel (“o Príncipe tem que ser temido ou amado”), empresas de todo o país aproveitaram-se de seu poder e falta de ética para adentrar na política, influenciando diretamente um sem número de parlamentares.

Espero que Cunha seja preso. Se não o for, chegarei à conclusão de que, de fato, as instituições brasileiras não estão funcionando, ao contrário do que se diz por aí.

Categoria(s): Escrito por Matheus, Política, Sociologia

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