As eleições e o mercado financeiro (de derivativos)

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Nestes dias que antecedem as eleições, vocês já repararam alguma relação entre as pesquisas eleitorais (ou os resultados das eleições) e o mercado financeiro?

Sei o que todos dirão: se Dilma está bem, a bolsa cai. Se Aécio está bem, a bolsa sobe. OK, isso é verdade e está sobretudo ligado à questão das ações das empresas estatais, tendo nenhuma relação com a competência gerencial de Dilma e Aécio e sim com os principais beneficiados pelos modelos de gestão em jogo, como muito bem abordado aqui.

Mas, o que mais se destaca nisso? Vocês reparam? A variação é muito, muito grande. Quando a Petrobras cai, cai mais de 4%. Quando sobe, sobe mais de 4%. Um comportamento volátil, com variabilidade diária muito elevada. Imagine que R$ 100 mil reais podem se transformar em R$ 104 mil ou em R$ 96 mil dentro de um só dia. Isso é o mercado, caríssimos!

Mas, enfim, o que quero levantar aqui é que os grandes operadores do mercado sairão ganhando em qualquer circunstância, independente do mercado estar em alta ou em baixa. Como? Mercado de derivativos. O que é isso? Eu explico, nas próximas linhas.

Antes, deixem-me detalhar um pouco como funcionam as “Bolsas de Valores”. Apesar de diversos questionamentos poderem ser feitos à existência do mercado de capitais, este é necessário. Por quê? Para que a empresa se financie, basicamente obtendo recursos, reduzindo riscos e viabilizando projetos.

Depois que as empresas abrem capital (lançam suas ações na bolsa, a um determinado preço), começa a ocorrer o comportamento dos detentores de suas ações. Alguns confiam na empresa e mantém as ações em mãos. Outros negociam as ações à medida em que elas se valorizam ou desvalorizam, encerrando operações de lucro ou prejuízo. Basicamente, em dias em que mais pessoas compram as ações da empresa, esta se valoriza. Nos dias em que mais gente vende ações, a empresa perde valor. O “valor da empresa” ao final de cada dia é um ajustamento de oferta e demanda, e pode não ter qualquer relação com os resultados apresentados por ela.

Com a imprevisibilidade do mercado, o que se torna necessário? Proteção contra uma variação muito alta, correto? Então, neste sentido é que existem os mecanismos derivativos e o mercado de opções.

 Vou tentar explicá-los de maneira bem intuitiva, começando pelos derivativos: você produz, por exemplo, café, e sabe que precisa que cada saco valha R$ 60 para que você pague todas as suas contas (inclusive os riscos do seu negócio) e não fique no prejuízo. Você também sabe que produz, por exemplo, 100 sacas por mês, e não faz a menor ideia de quanto estará valendo o café daqui a 5 meses. Ele pode valer mais que R$ 60 ou menos que R$ 60. Mas, caso queira evitar riscos, você adquire o direito de vender 100 sacas por R$ 60. Se o preço do café subir demais, você o venderá por R$ 60, mas se o preço cair, ainda assim você garante sua sustentabilidade financeira, pois o vende pelos mesmos R$ 60. Isso não vale apenas para os produtos que se vende, mas também para o que se compra. Você pode, por exemplo, adquirir o direito de comprar o saco de fertilizantes por R$ 20, e assim o fazer, mesmo que o fertilizante venha a custar R$ 30. Este é o mercado de derivativos, comumente aplicado às commodities.

Esta ideia, no entanto, pode ser replicada para o mercado financeiro: há as opções de compra de ações e as opções de venda de ações. Está confuso? OK, eu explico melhor.

Imaginem que você quer ir ao novo restaurante da cidade. Todos têm ido e te disseram que o bacalhau servido por eles tem um “quê de quero mais”. Você então liga para o restaurante e faz uma reserva para comer o bacalhau. Diferentemente das reservas convencionais, no entanto, você paga por esta: por exemplo, um valor de R$ 2 lhe garante o direito de consumir o tal bacalhau. Assim funcionam as opções de compra: o restaurante, de quem você adquiriu a reserva, é obrigado a lhe vender o bacalhau nas circunstâncias negociadas. Se você desistir de ir ao restaurante, perderá os seus R$ 2.

Outra situação: você tem seu carro, que vale R$ 20 mil, segundo o seguro que você adquiriu. Caso você sofra um acidente que incorra em perda total, terá direito a receber este valor. Da mesma maneira, se você for roubado, receberá os mesmos R$ 20 mil mesmo que seu carro, mais conservado e bem equipado que a média de mercado, valha mais que isso. Você pagou um dado valor pelo seguro, correto? Esta foi a sua opção de venda. O seguro é obrigado a lhe comprar o carro.

Assim como as reservas e os seguros, os direitos e obrigações de cada parte assim funcionam no mercado financeiro, no que se refere às opções de compra e de venda.

Aí, no entanto, entra a grande distorção deste mecanismo (para quem defende uma sociedade menos desigual) e o “pulo do gato” para os lucros dos grandes investidores. Estes direitos também podem ser negociados. Você pode, por exemplo, comparecer à porta do restaurante com a reserva em mãos e revendê-la a eventuais interessados: um cidadão que queira pedir a noiva em casamento naquele dia, e não pode entrar no estabelecimento devido à superlotação, não hesitará em pagar R$ 10 pelas reservas que você comprou por R$ 2, correto?

Assim também o é no mercado financeiro. Que fique bem claro que os valores citados a seguir são apenas elucidativos, OK?  Para a definição do preço justo das opções, Black & Scholes modelaram a influência de diversas variáveis como o prazo para vencimento, a volatilidade das ações, dentre outros, mas enfim… o único conceito que preciso passar é que existe uma variável que abrange a “expectativa futura”, ou seja, a opção de compra, hoje, de uma ação que vale R$ 20,00, com um preço de exercício de R$ 20,00, não vale R$ 0,00. Certamente valerá um pouco mais do que isso, convergindo para esse valor à medida que se aproxima do vencimento desta opção.

Caso você tenha comprado, hoje, uma opção de compra das ações da Petrobras, até a próxima semana, a R$ 20, sendo que estas valem, hoje, R$ 19,90, pode ter pagado por elas, por exemplo, algo em torno de R$ 0,02. Caso amanhã as ações estejam valendo R$ 20,20, você CERTAMENTE achará pessoas interessadas em pagar pelo menos R$ 0,19 pelas suas opções, pois ainda assim elas estariam comprando as ações por R$ 20,19 (opção de compra da ação a R$ 20 por R$ 0,19 mais compra da ação a R$ 20,00) e automaticamente obteriam um lucro de R$ 0,01 para cada operação, se as vendessem ao preço de mercado, de R$ 20,20. A sua opção, comprada por R$ 0,02, foi vendida por R$ 0,19, o que é quase 10 vezes o valor pago. Sim, você quase multiplicou sua fortuna em 10 vezes. Um aumento de 1,5% no valor da ação levou a um aumento de 900% na opção.

As operações acima citadas têm altíssimo risco (volatilidade), onde também se pode perder muito dinheiro. Uma pequena movimentação no preço das ações gera uma movimentação abrupta no preço das opções. Esta volatilidade se repete para as opções de venda, com um comportamento distinto: Quando o mercado cai, você ganha dinheiro. Quando ele sobe, você perde dinheiro, o que contraria o senso comum das pessoas.  Detalhando: se você comprou por R$ 0,02 o direito de vender a R$ 20 as ações da Petrobras, sendo que estas estavam avaliadas em R$ 20,10, você estava até perdendo dinheiro naquele momento. Mas, se as ações passam a valer R$ 19,70, e se você tem o direito de vendê-las a R$ 20,00, você pode negociar este direito a, pelo menos, R$ 0,30 (isto porque a “seguradora” que te vendeu este direito se obriga a comprá-las por este preço, independente do mercado).

Enfim, sei que o tema é complexo, mas espero que tenham compreendido alguma coisa. Para encerrar a ideia, existe o último aspecto a ser apresentado: os preços de exercício. As opções são lançadas e negociadas para diversos preços de exercício: você pode ter opções de compra a R$ 18, R$ 22 ou R$ 24, e opções de venda a R$ 16, R$ 20 ou R$ 26. A questão é que há mecanismos que possibilitam combinar diferentes tipos de opções. Uma destas alternativas consiste em comprar opções de compra e de venda ao mesmo preço de exercício: com este mecanismos, por exemplo, se a ação subir ou descer 1%, incorre-se em prejuízo. Se a ação subir ou descer 3%, tem-se um pequeno lucro. Se subir ou descer 7%, os lucros são ainda maiores.

Como isso funciona? Suponhamos que estejamos a alguns dias do vencimento das referidas opções de compra e de venda, ao preço de exercício de R$ 20,00, e que o valor das ações esteja perto disso, por exemplo R$ 19,90. Possivelmente, as opções de compra estarão valendo alguns centavos (por exemplo, R$ 0,05), enquanto as opções de venda estarão valendo um pouco mais (por exemplo, R$ 0,15). A compra das duas lhe custará R$ 0,20. Independente do comportamento do mercado, a volatilidade das ações transformará uma das opções em pó (ela não valerá nada) e valorizará a outra. Se o preço das ações cair a R$ 19,00, as opções de compra viram pó e as opções de venda valerão pelo menos R$ 1,00. Se o preço das ações subir a R$ 21,00, as opções de venda viram pó e as de compra valerão pelo menos R$ 1,00. Entenderam a conta?

Assim, por meio destes tipos de combinação, lhes garanto que, na segunda-feira pós-eleições, os gestores de investimentos certamente sairão ainda mais endinheirados. Porque, se Dilma ganhar, as ações da Petrobras provavelmente caem mais de 5%. Se Aécio ganhar, as ações provavelmente sobem mais de 5%. Literalmente, trata-se de um mecanismo de concentração de renda, pois a exigência de lastro inviabiliza que pessoas de menor renda operem estes tipos de mecanismo.

Até por isso, apoio Dilma quando esta defende uma maior regulação do mercado financeiro, pois estes mecanismos certamente privilegiam os mais afortunados.

Categoria(s): Economia, Escrito por Matheus

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