A gestão petista da Petrobras

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Quem me acompanha há algum tempo, talvez perceba que eu tento trazer uma visão dos erros e acertos de cada partido político, seja ele o PT, o PSDB, o PMDB, o PSOL, o DEM ou qualquer outro. Talvez não seja difícil perceber, ainda, que tenho uma visão política mais à esquerda, com posicionamento político que varia entre votos no PT e votos em partidos mais à esquerda. Após a vitória de Dilma, as ações da Petrobras caíram, ontem, mais de 10%. Hoje as mesmas subiram mais de 3%. Amanhã e, possivelmente, na quinta-feira, os movimentos de alta se manterão. Ou seja: não passou de um movimento especulativo de curto prazo.

Neste âmbito de “guerra política” no Brasil, certamente a empresa mais citada é a Petrobras. Os últimos resultados financeiros apresentados pela empresa têm surpreendido a todos, sobretudo aos mais pessimistas. Diante deste cenário de horror em que se declara insistentemente haver uma “crise da Petrobras“, parecendo prenunciar a iminente falência da empresa, decidi escrever sobre o tema.

As pessoas vêm criticando muito a empresa e a maneira como o PT vem gerindo a mesma. Que fique bem claro, primeiramente, que há um aspecto da gestão petista da Petrobras do qual discordo: o excesso de cargos comissionados, indicações e terceirizados exercendo atividades-fim. Esta, para mim, é uma das grandes falhas do governo petista, e se estende a uma série de outros setores, como os serviços públicos e as agências reguladoras.

O modelo de partilha

Setores mais à esquerda criticaram o leilão do campo de Libra, por pressupor que parte dos lucros ficarão com empresas estrangeiras. Acontece que, pelo modelo de leilão praticado, o de partilha, a Petrobras ficaria, no mínimo, com 30% do campo, além de ser responsável pela operação do campo. Como resultado do leilão, ficou com 40%. Os outros 60% estão nas mãos de companhias europeias e chinesas. Mais de 40% do óleo lucro (após deduzidos os custos) também ficará com o governo, para o Fundo Social do Pré-sal, cujos investimentos devem ser distribuídos entre educação, cultura, ciência e tecnologia. Setores mais à direita criticam o excessivo endividamento da empresa. Eu apoio o modelo de partilha, sobretudo por se basear no modelo norueguês, caso de sucesso reconhecido por todo o mundo.

Por que as críticas à direita? Alega-se que é necessário dividir os investimentos e custos para que não se prejudique o endividamento da empresa. Como entendo de Finanças, compreendo perfeitamente a situação: uma empresa endividada assume riscos e pode ficar “pressionada” ao ponto de não conseguir manter investimentos. Mas a questão central é que se trata de um campo de enorme magnitude (de 8 a 12 bilhões de barris de petróleo em reservas já provadas). Por isso as críticas à esquerda, uma vez que já se conhece o potencial exploratório do campo de Libra e o tamanho das reservas, ou seja, a extração de petróleo neste campo terá risco quase nulo.

Compreendendo algumas notícias

Apenas para lhes situar sobre a questão, há aspectos amplamente divulgados pela mídia, sobre a gestão da Petrobras, que também se deve ter ciência:

- a obrigatoriedade de comprar combustível de fora para suprir a demanda interna. Isso sufoca a empresa financeiramente, já que a gasolina refinada lá fora, com o dólar alto, tem que ser comprada a preços mais altos do que será revendida aqui. Essa “compra obrigatória” está no estatuto da empresa, da década de 50, e que é difícil de ser alterado, pois envolveria uma série de articulações políticas. Ou seja, é uma situação complicada, que para ser resolvida envolveria, mais uma vez, corrupção.

- há ainda a questão de segurar o preço da gasolina para não impactar a inflação: é uma maneira encontrada pelo governo para transformar a Petrobras em instrumento econômico: prejudica a empresa, “artificializa” a inflação, mas não pesa no bolso do povo.

- Destacam-se ainda algumas dúvidas quanto ao comportamento do petróleo no longo prazo: haverá, no futuro, alguma fonte energética abundante e mais barata e ambientalmente sustentável que o petróleo, que o substituirá e fará o valor deste cair no mercado internacional, inviabilizando os investimentos brasileiros no setor? Confesso não ter uma opinião formada sobre o tema.

Compreendendo os investimentos

Há outro aspecto, levantado por pessoas da área, que também deve ser sabido:

- os projetos de longo prazo que estão sendo tocados pela empresa não se limitam à exploração dos campos do pré-sal, mas também a setores a jusante na cadeia produtiva: refinarias e petroquímicas como Comperj (RJ), Renest – Abreu e Lima (PE) e Refinarias Premium (MA e CE). Tratam-se de projetos caríssimos, onde também foram detectados casos de corrupção. Desconsiderando a corrupção, no entanto, não se pode negar o impacto socioeconômico positivo que estas terão: quando de fato forem concluídos, teremos não somente maior produção interna de combustíveis, como também maior geração de empregos e maior absorção tecnológica para o país (na verdade, dada a magnitude destes projetos, dezenas de milhares de empregos já estão sendo gerados na fase atual, de instalação destas unidades).

Críticas à gestão, política de conteúdo local e visão de futuro

Vamos ao ponto: as críticas que economistas, banqueiros, dentre outros, vêm fazendo à gestão da Petrobras, em minha humilde opinião, trazem uma visão particular deles, do mercado de capitais, de interesse exclusivo no retorno sobre o capital, e não na Petrobras como instrumento social.

Vejamos um aspecto interessantíssimo da gestão petista: CONTEÚDO LOCAL.

Não é difícil de entender: as sondas, plataformas, peças e navios contratados pela Petrobras têm, como critério principal das licitações, a obrigatoriedade de que um percentual relevante da composição de seu valor (em média, 70%) seja produzido no país! Isso é ruim para a Petrobras como agente financeiro, pois um equipamento destes, quando produzido no país, fica mais caro, demora mais a ficar pronto. Por outro lado, esta exigência gera milhões de empregos, como se pode observar pela revitalização da indústria naval de 2003 para cá (há alguns anos atrás, nem sei se havia algum estaleiro em atividade).

O conteúdo local gera absorção tecnológica para que, dentro de alguns anos, estejamos produzindo estes componentes por aqui, em menos tempo e a preços mais competitivos. Hoje já temos a quarta maior indústria naval do mundo, perdendo apenas para gigantes asiáticos (China, Coréia do Sul e Cingapura).

Sobre visão de futuro, há algumas coisas interessantes! A Petrobras vai, pelo menos, dobrar a produção atual até 2020. Para isso, precisa se estruturar financeira e tecnicamente. Isto envolve uma série de medidas: enxugamento de gastos, desenvolvimento técnico, perfuração de poços, construção de sondas, plataformas e toda a infraestrutura de apoio à indústria… Até começarem a tirar o óleo propriamente dito, passa-se por um momento de “apertamento monetário”, se é que podemos dizer assim.

Há quem diga, ainda, que a “escandalização” dos problemas da Petrobras é evidenciada pela mídia com o intuito de gerar pressão para, em caso de vitória tucana, justificar leilões de petróleo para empresas internacionais ou até uma possível venda da empresa. Prefiro acreditar apenas que a mídia esteja apenas cumprindo o papel que lhe cabe: denunciar irregularidades, qualquer que seja o governo.

Estes aspectos, quando somados, geram a falsa impressão de que a Petrobras está em crise. Mas, diante do exposto, creio que, no fundo, socialmente falando, não importa se a quantidade de petróleo produzindo está aumentando, tampouco se o lucro da Petrobras está crescendo ou não. O que importa, meus amigos, é que não falte emprego pro povo… E isso não vai faltar!

O modelo proposto por Aécio seria, em minha opinião, um retrocesso, pois facilitaria a participação de empresas internacionais na exploração de petróleo no país, elevaria os preços dos combustíveis e reduziria os empregos gerados pela cadeia produtiva do setor.

Categoria(s): Escrito por Matheus, Política

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