Intercâmbio acadêmico

Imagem: O Globo

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Fui criado numa cidade pequena , por uma família relativamente conservadora. Talvez não tanto, uma vez que eu e meus primos saímos ainda novos para estudar fora. Ou seja, meus tios não criaram seus filhos para si, e sim para o mundo, ao contrário do que se pode ver em outras cidades pequenas  por aí. Por outro lado, bastante conservadora, ao ponto de parte de seus membros (não os meus pais) defenderem uma série de ideias tipicamente conservadoras, como “bandido bom é bandido morto”. Uma família conservadora, mas, ao mesmo tempo, de bom coração. Nunca esbanjamos, muito do que tínhamos era doado, sempre nos preocupamos muito com a causa dos mais pobres.

Após este parágrafo introdutório, vamos ao que interessa. Com meus 18 anos recém completados,  terminava o ensino médio e estava aprovado em alguns vestibulares bastante interessantes, todos na área de engenharias, de diferentes especializações. Não tinha qualquer conhecimento acadêmico para saber a escolha a ser feita “para o resto da minha vida”. Acabei optando por estudar Engenharia de Telecomunicações, em Niterói, por ter sido o curso para o qual tinha passado no 1º semestre. Certamente, minha mãe ficou como na música do Zezé di Camargo: “No dia em que saí de casa, minha mãe me disse… mas ela sabe que depois que cresce, o filho vira passarinho, e quer voar”.

Saí de casa. Pé na estrada. Com coragem! Apesar de ter sempre sido muito safo no que se refere a se virar sozinho, minha mãe ficou preocupada. Tenho os melhores pais do mundo. Atenciosos, cuidadosos, preocupados, conselheiros, animados, enfim, me faltam adjetivos. Mas eles não teriam como me dar o aprendizado que tive durante os anos que passei longe de casa.

O título deste texto provavelmente os remete a uma ideia diferente da que pretendo transmitir aqui. Nunca fui estudar no exterior, muito menos fui fazer “work experience”. Os amigos mais próximos, também não. Todos tinham uma origem razoavelmente humilde, como eu. A maioria de nós fazia parte da primeira geração da família a cursar o ensino superior.

Todos tínhamos perfil bastante parecido: gostávamos de nos divertir, aspirávamos a ter um bom desempenho nos estudos, mas não éramos daqueles que “caem nos livros” sem deixar tempo para a vida social. Mas também éramos diferentes. O destino foi nos separando. Alguns se atrasaram durante a faculdade. Muitos de nós mudamos de curso. Uns se inscreviam em umas matérias. Os demais, em outras. Alguns atrasaram a formação por causa de problemas pessoais, estágios ou empregos fixos. Alguns se formaram no prazo. Outros, muito depois. Alguns se casaram cedo. Outros, ainda nem pensam nisso. Alguns gostavam de sair muito. Outros, apenas uma ida ao cinema ou um barzinho de vez em quando. Felizmente, até hoje nos vemos. Em aniversários, confraternizações ou até em happy hours esporádicos. Esse foi o primeiro grande presente que a UFF me deu: um grupo de amigos que se mantém unido.

Acabei me apaixonando pela UFF. Se nos primeiros períodos ainda não me divertia muito nem tinha uma visão de mundo tão abrangente, a “separação” de alguns amigos me fez começar a frequentar festas e eventos até antes pouco comuns. Obviamente, houve as choppadas 0800 nos campi, a céu aberto, praticamente todas as quintas-feiras, onde conheci muita gente. Ali vi estudantes, professores, moradores de comunidades próximas, maconheiros, gays, playboys, um sem número de pessoas diferentes. Muitas daquelas que, por eu repetir discursos que ouvia, abominava achando que seriam verdadeiras ameaças, mas que quando participei destes eventos, descobri serem inofensivos. A cultura do encontro. Me fez ver de perto gente que eu “só ouvia falar”.

Destaco também diversos eventos que ajudaram a me tornar politizado, entender as demandas de grupos excluídos e compreender melhor o sistema político brasileiro. Ainda acho chatos os caras que vendem Jornal Comunista na porta da faculdade. Mas vi o crescimento do PSOL, um partido que, por mais difuso que seja, tem gente muito admirável.

Morei em república. Aprendi a lidar com gente bem diferente. Aprendi a brigar por coisas que estavam claramente erradas (limpeza na república, por exemplo), mas também aprendi a ser mais tolerante com certas coisas. Aprendi a evitar confusão e a “fazer vista grossa” para coisas banais. Aprendi que as cuecas não surgem, limpas, no armário, por obra divina. Aprendi a me virar sozinho (ainda que até hoje eu não faça feijão, mesmo sendo um dos meus pratos preferidos).

Imaginem se eu ficasse em Miguel Pereira? Se eu estudasse em Vassouras? Minha vida continuaria rotineira, monótona e longe de muitos aprendizados. Imaginem se eu cursasse uma particular em outra cidade? Não aprenderia a ser autodidata (a UFF tem dessas coisas), não conviveria com pessoas distintas, dos mais diversos cursos. Possivelmente conviveria com meu grupinho, e juntos nos formaríamos, sem maiores horizontes.

Não, nunca fiz um intercâmbio no exterior. Mas na UFF conheci uma infinidade de pessoas, de raças, credo e visões de mundo completamente distintas. Nas convivências diárias, e sobretudo nas eventuais, aprendi que, acima de tudo, quando se respeita a opinião do outro, cada indivíduo vive mais feliz, em harmonia com a sociedade e longe de medos, preconceitos e estereótipos.

Isso vale para uma série de casos: o bandido que é julgado, o gay que é discriminado, os pobres que são odiados, os muçulmanos que são pré-julgados.

Meu “intercâmbio acadêmico” me ensinou a cultura do encontro. Me ensinou a construir pontes. Me ensinou a enxergar o diferente. A ser tolerante. Algo que o mundo precisa muito. Algo que resume parte dessa minha experiência na UFF foi descrito pelo poeta persa Saadi (onde hoje é o Irã), num toque de inspiração:

“Os seres humanos são parte de um todo

Na criação de uma única essência e alma

Se um membro sofre dor,

Outros membros permanecerão inquietos

Se você não tiver respeito pela dor humana,

Você não pode ser considerado humano.”

Categoria(s): Escrito por Matheus, Estilo de Vida, Pessoais

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