Meus questionamentos a Aécio

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Diante do ódio que se propagou pela rede nos últimos dias, preciso externar aqui, de maneira saudável, alguns fatores econômico-institucionais que certamente me influenciaram a votar em Dilma no próximo domingo. E sobre os quais Aécio deixa de falar. Não vou entrar aqui na questão do governo de Aécio em Minas, das censuras de Aécio à mídia e às redes sociais e nem nas questões de comportamento pessoal do Senador. Tratam-se apenas de questionamentos propositivos.

1) Economia e relações exteriores

Primeiramente, como eu já discuti aqui, o que Aécio deixa de falar: a implementação neoliberal que se aproxima das regras do Consenso de Washington e o impacto disso em aspectos econômicos populares, como a taxa de desemprego e a questão da distribuição de renda, sem sombra de dúvidas o ainda maior dos males do país e causa de grande parte de nossos problemas. Aécio prega um modelo de política externa que entrega o Brasil aos interesses exclusivos de EUA e UE, e propõe seguir o que estes países dizem ser o correto para a condução econômica. Estes países, no entanto, no período em que mais se desenvolveram, no pós-guerra, adotaram exatamente o modelo oposto, o modelo econômico desenvolvimentista, que hoje Dilma defende. O livro “Chutando a Escada” trabalha exatamente esta ideia, de que os países desenvolvidos valeram-se das ideias keynesianas para chegarem ao estado atual, de países desenvolvidos, porém sugerem que os países que passam pelo processo de desenvolvimento devem adotar ideais neoliberais. Controverso, não?

2) Exploração de petróleo e conteúdo local

A segunda coisa que Aécio deixa de falar e talvez o mais preocupante de tudo: Pré-sal, o retorno do modelo de concessão e a redução das regras de conteúdo local. Esta notícia é bastante ilustrativa acerca do que representariam as medidas de Aécio Neves para o setor: participação de empresas internacionais na exploração de petróleo no país, redução da importância da Petrobras, aumento dos preços de combustíveis, flexibilização das regras de controle de operação e flexibilização da lei de conteúdo local, ou seja, menos empregos e a riqueza do petróleo sendo distribuída com nações mais ricas.

3) Duas políticas econômicas distintas

Sempre alegam a corrupção, a alternância de poder e o “aparelhamento do Estado” como argumentos para votar em Aécio. Não falam que a corrupção está em todos os partidos, inclusive no próprio PSDB e no próprio Aécio. Falam em alternância de poder, mas isso parece não valer para os mais de 20 anos de PSDB em São Paulo. E o tal aparelhamento do Estado e da máquina pública não se confirmam.

Não acho que o Aécio vai acabar com o Bolsa Família e nem acho que a Dilma quer implantar um bolivarianismo no país. Acho que estão em jogo dois projetos econômicos distintos.
Além da discussão acerca do eventual neoliberalismo de Aécio,  propõe um “choque de gestão” com fim dos preços represados, congelamento do aumento do salário mínimo, redução de participação dos bancos públicos, redução dos investimentos em políticas sociais (e dos gastos públicos).. Isso pode até resultar em um crescimento um pouco maior da economia nos próximos anos e numa redução da inflação e dos gastos públicos, mas vai estancar o processo que vivemos, de:
- distribuição de renda;
- aumento dos direitos dos trabalhadores;
- geração de emprego no próprio país (com destaque para a política de conteúdo nacional que reativa o dinamismo de uma série de setores);
- aumento significativo dos investimentos públicos em setores estratégicos (educação, infraestrutura e inovação, por exemplo);
- desenvolvimentismo econômico (grandes obras de infraestrutura econômica e social feitas pelo governo, já que muitas dessas, se fossem feitas pela iniciativa privada, cairiam claramente em um conflito de interesses cujo objetivo central seria o lucro).

Até concordo que talvez haja alguns erros na condução da política econômica e que algumas mudanças estruturais possam ser necessárias, para rearranjar o caminho de crescimento econômico e  redução da inflação. De qualquer maneira, não enxergo um cenário tão desastroso como alguns prevêem: acho que os grandes investimentos feitos em infraestrutura e as concessões de estradas, hidrovias, ferrovias e portos paulatinamente começarão a surtir efeito.

Esta entrevista de Márcio Pochmann esclarece bem a economia numa perspectiva Dilmista.

No que se refere aos aspectos em que Aécio nitidamente omite informações

1) Taxa de investimento da economia

Aécio diz que quer aumentar a taxa de investimento na economia. Talvez vocês não saibam, este tema se refere não às taxas de investimento estrangeiro direto (que também aumentaram), mas à formação bruta de capital fixo, um conceito econômico que mede o quanto do PIB é investido pelas empresas em máquinas, equipamentos e expansão da capacidade produtiva.

OK, realmente a taxa caiu. Porém, Aécio é favorável à redução da participação dos bancos públicos na economia, como disse seu futuro ministro, Armínio Fraga. Acontece que, sem o BNDES, os investimentos em bens de capital (máquinas e equipamentos, sobretudo) podem seguir um caminho de queda ainda maior, sobretudo quando se olha as vultosas taxas de juros cobradas pelos bancos privados e a infinidade de mecanismos de apoio do BNDES (e também de outros bancos públicos) à compra de bens de capital.

2) Etanol celulósico

Aécio costuma dizer que os governos do PT levaram à falência o setor de etanol. Reconheço que muitas das empresas do setor estejam em situação crítica, mas não acho que a “culpa” tenha sido do PT, por uma série de fatores:

i) Tenho um questionamento central ao setor, que se refere à infinidade de trabalhadores deste encontrados em situações semelhantes à de escravidão. Bom, se as empresas do setor assim estão por causa das políticas de direitos trabalhistas e valorização do salário mínimo, não têm o menor respeito pela dignidade humana e não merecem políticas públicas que as incluam;

ii) Durante os governos do PT, houve uma série de incentivos à indústria de biocombustível, não somente ao etanol. Os incentivos para pesquisas e desenvolvimento de combustíveis a partir de uma série de oleaginosas e a fabricação de veículos flex, por exemplo.

O crescimento do setor, no entanto, esbarra em limitações para a sua inserção no mercado global de combustíveis e energia. Algumas medidas foram implementadas neste sentido, com destaque para o livro verde do Etanol, que buscava divulgar os benefícios dos biocombustíveis para o mundo;

iii) O último aspecto e aspecto central deste tema: o etanol de segunda geração, ou etanol celulósico. Quando Aécio critica as ações que desencadearam na crise financeira do setor, ele não fala, por exemplo, das pesquisas da Embrapa e dos investimentos públicos (BNDES e Finep) em ações que levaram à produção do etanol celulósico, ou etanol de segunda geração, que consiste em etanol combustível produzido a partir do bagaço e da palha da cana, aumentando significativamente a produtividade do setor e reduzindo os impactos ambientais, sobretudo aqueles decorrentes da queima e descarte de palha e bagaço.

Categoria(s): Economia, Escrito por Matheus, Política

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