O que o “Esquenta” revela sobre o brasileiro?

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O programa Esquenta e a opinião das pessoas sobre ele revela muito sobre a nossa sociedade. Por mais que possa haver críticas a uma série de aspectos do programa, como o elenco “visitante” que é praticamente fixo, os cortes de edição (que me desagradam muito) e até os aspectos musico-culturais, nada justifica as principais críticas ao programa, sempre carregadas de um discurso de ódio e preconceito.

Por mais que eu seja fã de funk antigo e de samba de raiz, não gosto dos funks mais recentes e nem de pagode. No entanto, isso não me faz desgostar do programa. Não o assisto porque não vejo televisão. Mas me revolto com as críticas que ouço: já ouvi expressões como “Tinha que explodir uma bomba ali” e “É o programa que hospeda os traficantes que fornecem drogas para os artistas da Globo”. São críticas infundadas, raivosas e dignas de processo: imbutem um discurso que prejulga o outro.

Não gosta do programa? Desliga a televisão, vá fazer outra coisa, troque de canal. A verdade é que o programa é o primeiro do tipo a trazer para a televisão a realidade da maioria das pessoas da periferia. Churrasco na laje, samba, funk, batalha do passinho, cabelos platinados, roupas estranhas, isso faz parte da realidade destas pessoas. É um dos poucos contrapontos de fato realistas à mídia recheada de artistas brancos, com elevada formação intelectual, em sua maioria herdeiros de uma quantia considerável.

Obviamente, nem só de vitórias vive o homem. Tenho críticas e consigo enxergar falhas: é exatamente por trazer uma realidade diferente que o programa esbarra em tantos preconceitos. A verdade é que o Esquenta também erra ao estereotipar o morador da periferia como ele realmente o é: e isso influencia as pessoas a se manterem no status quo, pois são levadas a crer que devem manter suas origens e talvez não lhes seja útil tentar aprender a falar inglês ou prestar vestibular para engenharia. Por mais que a valorização de cada cultura, individualmente, seja extremamente importante, o programa contribui para manter as pessoas com poucas perspectivas de ascensão.

Ou seja, amigos… o Esquenta reflete a verdadeira realidade do povo (ao menos na realidade carioca): aqueles que mais têm geralmente não apenas fecham os olhos para o programa, mas estereotipam os participantes como vagabundos, mal-informados, isso quando não extrapolam os limites. Os telespectadores assíduos do programa, por outro lado, mantém seus hábitos típicos achando que o único requisito para se viver bem é ter churrasco com funk e pagode todo domingo, andar com roupas extravagantes ou fazer luzes no cabelo. O programa, que poderia suavizar parte do preconceito pelo qual a população pobre infelizmente ainda passa, contribui para mantê-lo.

Categoria(s): Artes e Cultura Geral, Escrito por Matheus, Sociologia

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