Os erros do PT

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Na medida em que mais textos sobre Política e Economia forem publicados neste blog, ficará clara a minha opção pela continuidade do PT na presidência da República. No entanto, não sou petista. Acho que a condenação de José Dirceu foi justa e consigo reconhecer os erros do partido. E neste sentido, seguem minhas críticas:

- o fato de não ter feito as grandes reformas que o país precisa: Lula, por sua popularidade, poderia ter batido de frente com toda a classe política para fazer tais reformas. Tenho a visão de que o torneiro mecânico teria total respaldo social para fazê-las. E aí incluo a Reforma Política (com destaque para a discussão sobre financiamento de campanha), e a Reforma Tributária (juntamente com a Federativa), com a simplificação do sistema tributário (o que não quer dizer reduzir a carga tributária) e o aumento dos impostos sobre os mais ricos (tributação progressiva).

- aproximação com grupos oligárquicos e empresariais que se perpetuam no poder: se não houver uma reforma política no país, achar que é possível governar sem o PMDB, os seus coronéis e tantos outros “oligarcas” não passa de utopia. Mais: no âmbito empresarial, há conceitos de economia que deveriam ser compreendidos. A Odebrecht ganha todas as obras não somente por financiar campanha, mas por ser um grupo tão grande que, em licitações, sempre ofertará os preços mais baratos para as grandes obras (economia de escala e curva de aprendizado, caríssimos).

- afastamento de algumas causas sociais e de grupos minoritários: apesar de não ser um questionamento que teria sido feito a outros partidos, a verdade é que o PT tem aqui a sua origem e tem feito governos que excluem uma série de grupos minoritários.

- cargos comissionados federais e em empresas estatais: este é outro ponto em que discordo da gestão petista, uma vez que abriu-se espaço para uma série de negociações e espaço para “come-dormes”. Por outro lado, isso está tão enraizado na cultura política, que se repete em uma série de outros governos, como o do estado de Minas Gerais. E vem mais um questionamento: achar que “cortar o número de ministérios” e uma boa quantidade de comissionados vai trazer dinheiro pra resolver todos os problemas de saúde e educação é não ter qualquer capacidade de relativizar e comparar números.

- pouca preocupação com as políticas públicas para aposentados: infelizmente, é uma pena que estes estejam tão esquecidos, com reajustes salariais tão deploráveis. Pobres idosos, que tanto trabalharam em épocas muito mais difíceis, quando havia risco real de se passar fome, quando simples doenças infectocontagiosas como a diarreia matavam, quando não havia transporte público e pessoas como meus avós, por exemplo, andavam uns 10 km a pé para chegar ao trabalho.

- certa maquiagem nas contas públicas: é uma crítica que é feita recorrentemente aos governos do PT. Também condeno essa prática. Mas, a bem da verdade, isso independe de governo. O blog Preto no Branco analisa bem o propagandismo dos partidos neste período eleitoral. Deem uma olhada e vejam que todos os principais candidatos à presidência, sem exceção, mentem.

Poderia acrescentar aqui dois tópicos nos quais eu sei que receberei críticas: a corrupção e a condução da política econômica. Mas não acho que o PT tenha errado nestes. Ao longo deste texto, vocês saberão o porquê.

Imagine-se dono de uma empresa, suponhamos, de serviços. Você começa a crescer descontroladamente. A empresa, que era sua e de um sócio, passa a ter outros 5 funcionários. Pouco tempo depois, são 30. Você assume o papel de diretor e delega funções para alguns gerentes. Alguns anos depois, você tem mais de 100 funcionários. Você, agora exclusivamente no papel de presidente, passa a delegar funções a diretores, que têm seus gerentes, que têm seus subordinados, enfim. Jamais será possível saber como todos os processos andam. E mais: achar 100 funcionários plenamente confiáveis é fácil? Se alguém hierarquicamente abaixo vier a lhe trair, são grandes as chances de você vir a tomar conhecimento muito tempo depois. Como tentar controlar isso? Autorize órgãos independentes a fiscalizá-los. E isso o PT fez, perfeitamente.

Assim como nas empresas, o crescimento de partidos políticos tem de ser orgânico. O PT surgiu de movimentos sociais e tinha ideais excepcionais. Cresceu muito e perdeu o controle do seu poder, de modo que hoje, eu mesmo tenho rejeição a dois prefeitos petistas em meu estado: um em minha cidade natal, o outro na cidade em que moro. O controle sobre quem se filia a um partido deve começar bem cedo: O PSOL, por exemplo, que tem crescido muito no Rio de Janeiro, toma extremo cuidado para controlar seus membros cariocas, mas mesmo assim não escapa: Janira Rocha e Pastor Jefferson Barros estão aí, para comprovar isso. Se Davi quiser virar Golias, jamais pode perder a sua essência de Davi.

Agora, meus amigos, façamos uma breve comparação com nossas vidas pessoais: alguém que tenha uma vida minimamente agitada consegue dar conta de tudo? Se você tem esposa (ou marido), filhos, trabalho e ainda dispõe de muitos familiares e amigos, consegue dar conta de tudo? Ou você sempre se sente em falta com algo? Acha que poderia ter dado mais atenção a seu (sua) cônjuge? Acha que poderia ter dado mais atenção a seu filho? Acha que poderia ter trabalhado menos? Acha que poderia ter se dedicado mais em sua pós-graduação? Ou se arrepende de não ter feito uma? Acha que poderia ter arriscado mudar de emprego? Ou se arrepende de ter deixado o seu? Que poderia ter visitado mais os seus familiares distantes? Que poderia ter andado de bicicleta (ou de patins) com os seus filhos todos os dias pela manhã? Ou que poderia ter usado as suas manhãs para aprender algo que sempre teve vontade, como violão ou culinária? Acha que poderia ter viajado mais? Que poderia ter visto menos novela? Que poderia ter se dedicado mais a projetos sociais ou à sua Igreja? Que poderia ter sido menos intolerante? Que poderia ter se encontrado mais com seus amigos? Que poderia ter guardado mais dinheiro? Que poderia ter abdicado do seu plano de saúde? Será que alguma dessas preocupações passa por vossas cabeças? Nós somos o resultado de uma série de decisões que tomamos em nossas vidas, amigos. E isso inclui nossos acertos, e também nossos erros. Assim também é a política. Ainda que eu ache que a mesma esteja recheada de grupos corruptos e individualistas, a bem da verdade ainda dependemos dela, pois são estes indivíduos que decidem, através de programas, planos e leis, os rumos de nossas vidas. Um governo se faz com erros e acertos, em saúde, educação, mobilidade urbana, saneamento, segurança pública, previdência, inflação, emprego, distribuição de renda, impostos, infraestrutura, combate à corrupção, sistema judiciário, etc. Economia e política, assim como nossas vidas, são verdadeiros trade-offs, ou seja, tende-se a perder em algum campo para ganhar em outro.

Governar um país de proporções continentais como o Brasil, com toda a sua diversidade política, social, econômica, ambiental e cultural, não tem fórmula certa. E muitos não compreendem tal complexidade. Aí fica fácil sair falando em “petralhas”, “mensalão” e “fora Dilma” quando tampouco se tem noção de responsabilidades Federais, Estaduais e Municipais. A principal responsabilidade federal, se vocês não sabem, é criar programas, e isso não falta: Bolsa Família, Brasil Sem Miséria, Menor Aprendiz, Projovem, Minha Casa Minha Vida, Minha Casa Melhor, Luz para Todos, Pronatec, FIES, PROUNI, Reuni, Pronaf, Proinfa, Farmácia Popular, Mais Médicos e etc. Isso sem contar todas as grandes obras de infraestrutura e mobilidade urbana, o PAC, o Plano Brasil Maior e a imensa ampliação da quantidade de Escolas Técnicas e Universidades Federais. Apenas alguns exemplos, que fique bem claro.

Quando não se tem qualquer noção de economia, fica fácil dizer que “a verdadeira goleada está na economia…. ah, 7 de inflação e 1 de crescimento econômico”. OK, de fato são esses os números. Mas vocês já ouviram falar em Curva de Philips? Não? Então, no curto prazo o desemprego e a inflação são inversamente proporcionais: desemprego baixo, inflação alta, ou o contrário. Vocês já ouviram falar no Índice de Qualidade de Vida de Amartya Sen? Também não? Então, crescimento econômico e distribuição de renda também tendem a ser inversos. Economia, por ser um trade-off, é uma questão de prioridades: apenas o Brasil está entre os países em desenvolvimento que reduzem sistematicamente a desigualdade de renda. E o Brasil também tem hoje taxas históricas de baixo desemprego.

Tem mais: vocês sabem que o mundo está em crise? Que o PIB dos EUA no 1º trimestre de 2014 caiu 2,9%?

“Ah, mas a China?” A China polui, mata, ainda é extremamente desigual e não tem qualquer direito trabalhista (horas de trabalho, FGTS, férias, insalubridade e etc). Suas áreas rurais não têm reserva legal, suas fábricas não têm filtros de ar, tratamento de água e esgoto. É óbvio que seus produtos serão mais baratos. Chineses saem construindo tudo sem respeitar qualquer direito democrático. E o país ainda tem PIB per capita e IDH muito piores que o nosso.

“Ah, mas o Chile?” Você sabia que as reformas econômicas do Chile foram implantadas por meio de uma ditadura sanguinolenta que dizimou parte considerável da população? Além disso, que tem uma população de apenas 17 milhões de habitantes, menos de 10% da brasileira? Que a primeira Universidade chilena data de 1842, enquanto a nossa primeira foi criada em 1930?

“Ah, mas o Uruguai?” Governar um país de 3 milhões de habitantes é muito mais fácil que um de 200 milhões, não? Sem contar que é um país pequeno e de população homogênea.

“Ah, mas a África do Sul?” IDH do Brasil é 0,730, o da África do Sul é 0,629. A renda deles é infinitamente mais mal distribuída que a nossa.

“Ah, mas o México?” Este texto é bastante elucidativo sobre os resultados da política neoliberal por lá implantada.

Além de precisar melhorar educação, saúde e mobilidade urbana, ninguém fala coisas também muito importantes nas quais o Brasil precisa urgentemente melhorar: saneamento (ninguém se lembra dele, apesar de ser de responsabilidade dos municípios), produtividade e inovação científico-tecnológica (estas sim sob certa responsabilidade do Governo Federal).

Enfim, acho que expus boa parte de minhas opiniões aqui… Ainda que eu não ache que a nossa “democracia representativa” seja, de fato, 100% representativa, a verdade é que, entre erros e acertos, devemos ser menos egoístas de pensarmos apenas em nossos meus problemas, e optarmos por aqueles que se mostraram preocupados com os mais necessitados e com as causas sociais, e que colocaram em prioridade o emprego e o direito das pessoas. Por isso, no próximo dia 5 de outubro, eu votarei 13. Dilma presidenta. Apesar dos erros do PT.

Categoria(s): Economia, Escrito por Matheus, Política, Serviços Públicos

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