Os porquês do Brasil

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Não é incomum entreouvir as pessoas dizerem que as causas dos avanços ainda incipientes do Brasil, que vão desde a economia até a sociedade e os serviços públicos, têm sempre a mesma origem. Pensar um pouco “fora da caixa” implica em fugir do lugar comum que culpabiliza a corrupção, a má gestão e o sistema educacional como as únicas razões dos serviços públicos brasileiros ainda estarem distantes, em qualidade e eficiência, dos europeus, não deixando de reconhecer, no entanto, que estas ainda são questões crônicas do país. Entre as razões que certamente explicam o melhor funcionamento das coisas pelos países europeus, pode-se destacar aspectos históricos, geográficos, democráticos e culturais.

1) Comecemos, portanto, pelos HISTÓRICOS:

- A disponibilidade de recursos (principalmente financeiros) e a limitação para distribuição destes entre os setores pertinentes;

- Questões históricas acerca dos processos de colonização:

     i) A maioria dos países europeus foram colonizadores, e não colônias de exploração;

    ii) Entre os países hoje considerados de “Primeiro Mundo” que foram colônias, a grande maioria foi colônia de povoamento (sobretudo os anglo-saxões);

   iii) As ex-colônias de exploração que hoje se encontram em condições socioeconômicas melhores que o Brasil, no geral, se tornaram independentes muito antes de nós;

- O Brasil só se tornou uma democracia em 1985. Sim, somos um bebê democrático;

- Investimentos tardios em setores estratégicos. Um claro exemplo é a educação. Enquanto até países vizinhos, como a Argentina, tiveram suas primeiras Universidades fundadas nos anos 1600, a primeira Universidade brasileira data de 1913.

2) Há, ainda, questões GEOGRÁFICAS que favorecem sobretudo os países europeus, quando comparados com o Brasil:

- Menor extensão territorial;

- Elevada densidade populacional;

- Maior disponibilidade de recursos técnicos e mão de obra (não é raro ver atrasos de grandes obras de infraestrutura, algumas de relevante impacto social, como a Transposição do São Francisco, por conta de projetos executivos inadequados);

- Estes três fatores facilitam o planejamento e a gestão governamental, além de gerarem economias de escala, o que confere viabilidade financeira e social para a implementação de serviços públicos de maior qualidade.

Aqui, cabe um adendo interessante: o Brasil é o único país do mundo, entre os que têm mais de 70 milhões de habitantes (o que contabiliza 20 países), que tem um sistema de saúde que se propõe integralmente público e universal. Os Estados Unidos, que tanta gente louva por aí, ainda deixam pelo menos 50 milhões de cidadãos “a ver navios” quanto se trata de atendimento médico. O SUS também é um bebê. Antes da Constituição, somente aqueles vinculados ao sistema previdenciário tinham acesso à saúde gratuita (INAMPS).

Poderia ser detalhado, ainda, todo o processo de acentuação da desigualdade social no país, que só começou a ser reduzida nos últimos anos.

3) Há, ainda, o ÔNUS DA DEMOCRACIA (o que deve ser louvado, já que ditaduras não respeitam os direitos de ninguém) e da heterogeneidade social brasileira. É impossível fazer qualquer obra ou grandes reformas regulatórias (política, tributária, agrária, urbana, financeira, dentre outras), sem ouvir uma série de atores, desde os poderosos até os minoritários, como:

- Oligarquias políticas que se perpetuam no poder;

- Empresários dos mais diversos setores (agroindústria, empresas de ônibus, empreiteiras, mercado financeiro);

- Sociedade civil;

- Movimentos sociais e sindicatos;

- Grupos religiosos (inclusive os fundamentalistas);

- Entidades ambientalistas (e alguns “eco-chatos” também);

- Grupos socioculturais afetados (índios, ribeirinhos, sem-terras, eventuais desalojados);

- Grupos burocráticos (aprovação de “papelada”);

- Mídia.

Enfim, posso estar me esquecendo de alguns outros grupos… administrar todos estes interesses não é algo fácil! E é neste ponto que está minha crítica central a qualquer partido político, seja o PT, o PSDB, o PMDB, DEM, ou até partidos mais à esquerda, como o PSOL. Por mais que haja cidadãos bem intencionados em cada um dos grupos supracitados, há muita gente infiltrada, com interesses exclusivamente individuais.

4) Há ainda a questão CULTURAL, proposta por Inglehart (na figura acima), que afasta o Brasil dos referidos países:

- A Europa Nórdica, a Alemanha e os Países Baixos têm uma cultura que combina valores racionais seculares (liberdade política, religiosa e ideológica) a valores de autoexpressão (participação cidadã plena, autorrealização, preocupação com a sociedade e o meio ambiente)… e são justamente estes países que apresentam os maiores IDHs;

- O Brasil ainda se encontra em aspectos opostos dessa curva, combinando valores tradicionais (família, culto à autoridade e orgulho nacional) a valores de sobrevivência (como a segurança física e os bens individuais).

Também acho que os valores brasileiros acima explicitados explicam o “mau funcionamento da segurança pública” no país… o problema real passa muito mais pela visão cultural individualista do povo do que pela discussão acerca do modelo de polícia ou do sistema prisional.

Também no âmbito cultural, meus amigos, surge outra crítica, acerca do pré-conceito em relação a qualquer cidadão que pense ou viva de maneira diferente dos valores que “você” ou a sociedade julguem corretos. Diferentemente de alguns países europeus, no Brasil é comum que cidadãos mais ricos olhem com desdém para um cidadão que recebe um salário menor, que certos grupos não respeitem a opinião político-religiosa de outros. Pessoas com valores de direita acabam sendo sempre julgadas como “reacionárias”, pessoas com valores de esquerda são sempre julgadas como “comunistas”, sem um debate mais amplo das questões. Este desrespeito ao próximo, meus amigos, é raro na Escandinávia, na Holanda e na Alemanha. Este texto é absolutamente genial para tratar esta questão. Deixe seu “cada um com seu cada um”, que cada um seja feliz à sua maneira, respeitado pelos outros, pois somente assim caminharemos rumo a uma sociedade melhor, mais justa, e com melhores serviços públicos.

Apenas como adendo: estamos avançando em uma série de questões, ainda que a passos de tartaruga. Não sou eu quem digo, é a própria ONU. Este artigo da Revista Exame demonstra isso um pouco melhor.

Categoria(s): Economia, Escrito por Matheus, Política, Serviços Públicos, Sociologia

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