Sobre alguns filmes do Oscar 2015

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Diferentemente do que costumo escrever neste espaço, seguem algumas de minhas análises de filmes indicados ao Oscar, cuja cerimônia de premiação está prevista para ocorrer no próximo domingo.

MELHOR FILME

Boyhood: Nota 5. Incrível. Simples, sem reviravoltas ou surpresas, mas de uma complexidade e retratação da realidade admiráveis. A cada ano que se passa na vida de Mason, parece que não nos damos conta de que o tempo passou (exatamente como em nossas vidas). Cada pessoa pode se identificar com dramas vividos em momentos distintos do filme. Perfeito!

Whiplash: Nota 5. Uma história que surpreende por mostrar um lado um pouco diferente da ideia “corra atrás dos seus sonhos”. Obstinação e persistência não necessariamente te levam ao sucesso (nesse sentido, assistam também ao documentário Anvil). Resume de maneira figurada o universo profissional (não somente artístico) ao qual as pessoas devem frequentemente se sujeitar. Atuação, roteiro, filmagem, tudo perfeito. E a cena final? De tirar o fôlego!

Grande Hotel Budapeste: Nota 4. Com um início que desperta nossa curiosidade, ao longo da história vai batendo o sono, pois criamos uma certa expectativa pelo desenvolvimento do filme. O que nos mantém acordados são apenas os efeitos de câmeras/edição/cenários e a contraposição narração X dramaturgia. Apenas o final do filme me animou, por interligar aspectos que pareciam inconclusos ao longo do filme. Me pareceu uma mistura de “filmes de gângster” e “Quem quer ser um milionário” que deu um filme “bom”. Nada mais do que isso.

Birdman: Nota 4. Um filme até “legal”, mas que me pareceu pretensioso demais e acabou se perdendo. Gostei da parte “psicológica” do filme e da contraposição celebridades x artistas. Mas os exageros “fantasiosos” do filme, por mais que sejam coerentes com o roteiro, enjoam. Assim como a filmagem sem cortes (tecnicamente perfeita). Mas confesso que gostava mais do Iñarritú antigo: 21 Gramas e Amores Perros me agradaram mais que Birdman (não me lembro bem de Babel).

A Teoria de Tudo: Nota 3,5. História bastante emocionante: dramas, romances e superações. Uma boa história, talvez um dos mais bacanas personagens da história da ciência. Mas não gostei tanto assim do filme: parece uma novela das 9 contada em formato de filme.

O Jogo da Imitação: Nota 3,5. Outra história real de um gênio com dramas pessoais. Aqui, no entanto, não se trata de uma doença, mas de uma decisão pessoal. Também em formato de “novela das 9″, mas me surpreende um pouco mais pelo cenário e por ter a Segunda Guerra como pano de fundo. Um bom filme (para mim, um pouco melhor que o primeiro sobretudo por causa da Keira Knightley)

Não assisti Selma (Martin Lutherking) e Sniper Americano. Meio difícil de dizer isso antecipadamente, mas eu não daria o prêmio pra nenhuma das 4 biografias (Selma, Sniper Americano, A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação). Soa sempre como mais do mesmo. O melhor filme, para mim, seria Whiplash ou Boyhood. Mas acho que fica entre Boyhood, Grande Hotel Budapeste e Birdman.

FILMES EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Relatos Selvagens: 5. Ácido, cômico, crítico e real na pitada certa. Um somatório de 6 histórias de descontrole e vingança que nos fazem rir, nos desesperar, torcer, refletir sobre o mundo e terminam da maneira mais apoteótica possível. Fotografia, trilha sonora e edição surpreendentes. Uma obra prima do cinema argentino.

Timbuktu: Nota 5. Um filme que te bate à mente com frequência. Retrata não somente África, islamismo e censura, mas outras temáticas menos aparentes (como globalização). Apesar da dura realidade do extremismo religioso e o quanto ele pode levar as pessoas aparentemente mais dignas a momentos de fúria e intolerância, o filme conta com paisagens vislumbrantes e momentos bastante poéticos (como jogos de futebol sem a bola e cantoria de personagens).

Leviatã: Nota 4. Filme de pouca ação, mas que surpreende por tratar temas como família, política, traição, amizade e religião no momento e na medida certas. Retrata de maneira brilhante até que ponto os homens podem se levar para chegar ao poder. E mostra como instituições que deveriam estar ao lado do povo (a Igreja, por exemplo) na verdade ajudam a perpetuar corruptos no poder. Periga levar o Oscar por falar mal da Rússia (adversária histórica dos EUA). Também achei que a trilha sonora e as paisagens se encaixaram bem.

OUTROS DESTAQUES

O Abutre: Nota 4,5. O filme, por si só, é parado. Mas a realidade com que o filme trata as redes de televisão e o tipo de notícia vendável choca (talvez não tanto quanto “Rede de Intrigas”, de 1976). E o mais legal do filme: o discurso do protagonista (que tem muito mais de vilão que de herói) soa exatamente o mesmo dos livros mais vendidos do mundo corporativo, de autoajuda e empreendedorismo. Me fez pensar na “meritocracia Lehman” e nas distorções e excessos deste discurso (e modelo de gestão empresarial), além da semelhança com a realidade midiática atual.

Interestellar: Nota 4. A história em si se divide em três atos que, separadamente, valem o ingresso, mas o conjunto dos 3 parece se perder (se você não entende nada de ciência). Quando você assiste o filme, questiona se seria tudo possível e vai ler sobre buracos de minhoca, relatividade e teoria das cordas, vê que todos os fatos que acontecem no filme fazem sentido (cientificamente falando). No entanto, a insistência de Nolan em inserir reviravoltas em seus filmes não caiu tão bem nesta história. Algumas cenas são bastante previsíveis. Apesar de o final tentar “fechar o ciclo” e “encaixar as peças”, achei frio demais pelo que se poderia esperar!

Infelizmente, ainda não assisti Garota Exemplar nem Tangerinnes. Abordam temáticas que soam interessantes, mas fico sem qualquer comentário para estes filmes, por ora.

Categoria(s): Artes e Cultura Geral, Escrito por Matheus

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