Por que Dilma caiu? Marx estava certo!

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Certamente todos nós já passamos por aqueles momentos em que “a ficha demora para cair”. Assim me sinto com a votação do afastamento de Dilma, no Senado. Dilma caiu. Há muitas explicações razoáveis para sua queda: inabilidade política da presidenta, casos de corrupção, agravamento da crise econômica, esgotamento do ganha-ganha do modelo lulo-petista, síndrome de mau perdedor que assolou a oposição, lobbies de petroleiras internacionais, entre outros.

Enfim, a queda de Dilma tem infinitas variáveis. Mas, pode ser analisada, também, sob o ponto de vista da Economia. Neste sentido, cabe analisar o governo Dilma sob uma perspectiva marxista, analisando-se a renda do capital e do trabalho nos últimos anos e o quanto isso desencadeou a luta de classes que se exacerba na sociedade.

Um dos primeiros pontos que se pode analisar é a participação dos salários no PIB, quando se analisa a distribuição funcional da renda. A participação dos fatores lucros, juros e aluguéis (excedente operacional bruto) diminuiu, uma vez que a participação dos salários no PIB aumentou, conforme o gráfico abaixo:

SalarioPIB

Entre outros, um dos principais motivos para o aumento da participação dos salários no PIB foi o multicitado aumento real do salário mínimo. Além de melhorar a situação e poder de compra de uma massa de trabalhadores, esta política permitiu incorporar inúmeras pessoas a uma massa de consumo que viabilizou um crescimento econômico trazido pelo mercado interno, quando boa parte do mercado externo encontrava-se em recessão ou em baixo crescimento. O aumento real (acima da inflação) do salário mínimo está explicitado no gráfico a seguir.

salario

Pode-se somar, a esse aumento do salário mínimo, uma série de políticas que aumentaram os direitos dos mais vulneráveis, como a legislação que estabeleceu direitos trabalhistas para as domésticas e as políticas afirmativas de inserção no ensino superior, como as cotas para negros, estudantes de escolas públicas e pessoas de renda mais baixa.

Cabe ressaltar, no entanto, como alegam os economistas liberais, que apesar de ter havido aumento do salário real conjuntamente com aumento real da produtividade, o salário aumentou em maior proporção. Isso tende a ser um problema quando constante no longo prazo.

Diante das leis que garantiram direitos trabalhistas e maiores rendimentos aos trabalhadores, aos empresários caberia encontrar, por outros meios, uma rentabilidade adequada: de certa forma desincentivados a investir no setor produtivo, restavam como meios de acumulação de capital os mercados financeiros e os juros exorbitantes. Sucesso durante o governo Lula, o índice Bovespa havia acumulado níveis já bastante elevados após a recuperação da crise de 2008/2009, tornando-se assim um produto pouco atrativo, uma vez que, além de haver uma certa tendência à diminuição do lucros das empresas e os investimentos em renda variável não fazerem parte da cultura do capitalista brasileiro, o mercado brasileiro, por ser ainda ineficiente, estaria sujeito a especulações de curto e médio prazo. A evolução do índice IBovespa pode ser vista no gráfico abaixo (tendência de queda a partir de 2010).

Índice Bovespa

Fonte: Google (18/05/2016)

 

Principal meio de investimento dos rentistas brasileiros na história, as taxas de juros foram sensivelmente diminuídas por Dilma em 2011/2012, uma coragem inédita até então. O retorno real (acima da inflação) dos rentistas nos primeiros anos do governo Lula variou ente 6,5% e 11%, diminuindo a partir de 2009/2010. Em 2012, chegou a apenas 1,33%, níveis historicamente baixos, como é possível confirmar no gráfico abaixo.

jurosDiante de todos os dados apresentados, de certo estrangulamento do retorno e lucro dos empresários, muitos grupos lobistas começaram a unir-se em Brasília. Com o patrocínio da Fiesp, economistas e empresários começavam a diagnosticar que o principal problema do Brasil encontrava-se no risco país, que precisava ser reduzido para permitir o retorno dos investimentos. Cedendo a essas pressões, o Governo Federal anunciou uma série de medidas de desoneração fiscal (folha de pagamento, por exemplo), muitas vezes sem nenhuma contrapartida em troca. Outro exemplo foi a renovação dos contratos de distribuição de energia em troca da redução da tarifa, que poderia ser substituída, por exemplo, por exigências mínimas de investimentos. As renúncias fiscais engordaram as margens de lucro, que estavam sacrificadas, e não foram traduzidas em ampliação do investimento privado.

As desonerações, como outrora comentado neste espaço, foram causa importante do agravamento da questão fiscal no país. Diante das reivindicações empresariais, Dilma viu-se em um “beco sem saída”. A luta de classes se acirrou e Dilma caiu.

Categoria(s): Economia, Escrito por Matheus

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