O PT foi mesmo uma tragédia na Economia?

O que mais se ouve por aí é que os governos Dilma e Lula foram uma tragédia do ponto de vista econômico, que a crise econômica atual se deveu à “gastança” do PT e “muitas” decisões erradas até 2014, que o Brasil encontrava-se muito endividado, que o “rombo” nas contas públicas era inédito, que a inflação nunca esteve tão descontrolada, que todos os nossos indicadores econômicos estavam ruins.

O diagnóstico transmitido pelo discurso diário na grande mídia, com pouco ou nenhum espaço para o contraditório, insere na cabeça das pessoas o discurso único, que culpa o keynesianismo e o desenvolvimentismo como os culpados pela crise atual, sem levar em conta que o PT, por mais que em muito tenha seguido as “cartilhas” da heterodoxia, nunca as implementou integralmente.

Óbvio que o momento atual é crítico, mas os dados aqui apresentados oferecem uma visão mais completa da realidade: até o final de 2014, havia alguma criticidade nos dados apresentados pela economia brasileira, um sinal de alerta, mas nada alarmante. Vejamos os principais tópicos

Capítulo 1) Déficit, gastos públicos e endividamento público

O principal questionamento da oposição ao PT em 2014 era que, por causa dos altos gastos, as contas públicas saíram do controle e assim faltava confiança para que empresários investissem no país. Uma análise comparativa com países similares, no entanto, permite observar alguns erros dessa observação:

1) O Brasil apresentou-se superavitário (gastou menos do que arrecadou) todos os anos entre 2007 e 2013, diferentemente de uma série de países, não só os desenvolvidos, mas também países em desenvolvimento, como os BRICS e outros latino-americanos.

Superávit

Superávit primário (economias globais) / Fonte: FMI WEO, via “Por um Brasil Justo e Democrático”

 

2) O Brasil apresentou superávits sucessivos de 2001 a 2013 (anos disponibilizados na planilha do FMI), como pode ser visto na tabela a seguir

Superávit Brasil

Superávit primário (Brasil) / Fonte: FMI WEO, elaboração própria

Os dados acima mostram que o Brasil começava, naquele momento, a dar alguns sinais de alerta em relação aos gastos públicos, uma vez que o resultado primário caía. A comparação com outros países, no entanto, nos permite observar que os gastos maiores que a arrecadação não são uma exclusividade nossa, muito pelo contrário. O Brasil apresentou superávit desde o início da série histórica do FMI, sempre em torno de 3%. A título de exemplo: imaginemos uma família que economiza, ano a ano, 3% de todos os seus ganhos, e os guarda para necessidades futuras. Não vejo nada de ruim se essa família, eventualmente, precisa gastar mais do que arrecadou. Ela não deve ser julgada “indisciplinada” ou “incompetente” por causa disso, principalmente se as demais famílias são ainda mais descontroladas que ela.

Muito se alega, também, que a dívida brasileira, em relação ao PIB, estaria num patamar preocupante. A tabela abaixo também permite desconstruir esta falácia.

Dívida Bruta

Dívida Bruta em % do PIB / Fonte: FMI WEO, via “Por um Brasil Justo e Democrático”

Erro do PT (1)

Se muitas medidas keynesianas/desenvolvimentistas foram aplicadas, Dilma também cedeu, em seu primeiro governo, aos anseios liberais, segundo os quais a principal medida para o país voltar a crescer deveria ser a redução do Custo Brasil. Assim, uma série de desonerações fiscais e controle de tarifas de serviços públicos chegaram a onerar os cofres públicos em mais de R$ 100 bilhões ao ano.

Erro do PT (2)

Ao final do seu primeiro governo e início do primeiro, diante do diagnóstico de “crise fiscal”, Dilma cedeu novamente. Possivelmente motivada por pressões financistas e políticas sob a alegação de “dívida excessiva”, adotou um ajuste fiscal pesado e incoerente, perdeu a base social, não conseguiu ganhar a base parlamentar e financista e, ainda por cima, mergulhou o país numa crise econômica espiral, que se retroalimenta na medida em que as expectativas, em muito influenciadas pela mídia e pela instabilidade política, não melhoram.

Cortes nos investimentos públicos reduziram o crescimento econômico, que reduziu a arrecadação e segue obrigando novos cortes no orçamento. Os dados dos gráficos mostraram, sim, algum alerta para os gastos públicos, mas passávamos longe do descontrole. Um ajuste fiscal paulatino seria muito mais saudável para a economia.

Erro do PT (3)

Outro erro, reconhecendo todas as dificuldades de implementação, foi não ter lutado de maneira mais intensa por um tributação progressiva: os impostos sobre dividendos e ganhos de capital, por exemplo, só inexistem em 2 países do mundo, Brasil e Estônia.

Capítulo 2) Crescimento, câmbio e inflação

Um dos pontos nevrálgicos ao final de Dilma 1 era o crescimento econômico. De fato havia um arrefecimento do crescimento, como é possível ver abaixo.

Crescimento anual do PIB (%) / Fonte: FMI WEO, via "Por um Brasil Justo e Democrático"

Crescimento anual do PIB (%) / Fonte: FMI WEO, via “Por um Brasil Justo e Democrático”

Excetuando-se China, Índia e Colômbia, não havia qualquer crescimento de destaque no mundo. Mesmo economias em desenvolvimento davam sinais de arrefecimento. Sua estrutura produtiva ajuda a explicar: desde 2013, e de maneira mais severa em 2014, o preço das commodities começava a cair e afetava a balança comercial destes países. O gráfico abaixo mostra a Balança Comercial Brasileira e evidencia o efeito desta queda sobre nossas exportações e importações. Daí, cabe outra crítica a Dilma: o ajuste fiscal de 2015, num cenário desfavorável às exportações, dificultaria ainda mais uma recuperação, por menor que ela fosse.

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Balança Comercial – Brasil / Fonte: BACEN, via GOMES E CRUZ (2015)

Outro fator que também preocupava alguns era a inflação. Apesar de estar sob controle. acendia o sinal de alerta. Alguns preços administrados foram artificialmente controlados, porém a inflação seguia comportamento similar aos demais países emergentes, principalmente aqueles de grande extensão territorial, como é possível ver na tabela a seguir.

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Inflação anual (%) / Fonte: FMI WEO, via “Por um Brasil Justo e Democrático”

Neste ponto, outro erro do PT foi não lutar para mudar a referência da inflação para 2 anos ao invés de um ano, por exemplo, como adotado por muitos países, reduzindo assim o efeito das flutuações sazonais.

Em um cenário de inflação alta, apesar de controlada, o orçamento das famílias fica mais apertado. Assim, sobrariam basicamente como alternativas para o crescimento a demanda orientada pelo investimento público e a demanda externa. Com os cortes de investimentos públicos em 2015, sobraria apenas a demanda externa. O dólar barato por sucessivos anos atrapalhou a atratividade de nossos produtos (que se tornavam caros para os estrangeiros), como mostrado o saldo da balança comercial de produtos industriais.

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Balança Comercial de Produtos Industriais – Brasil / Fonte: BACEN, via GOMES E CRUZ (2015)

Capítulo 3) Emprego e salário mínimo

Apesar de alguns erros acima citados, o PT, fazendo jus a suas raízes, destacou-se também pelas políticas trabalhistas. A principal delas, obviamente, o aumento real do salário mínimo, que melhorou o poder de compra do trabalhador.

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Fonte: IBGE, via GOMES E CRUZ (2015)

Além do salário mínimo, cabe destacar ainda a geração de empregos e a geração de empregos formais, obviamente alicerçadas no crescimento proporcionado pelo boom das commodities, pelas políticas keynesianas que fortaleceram o mercado interno e pelos incentivos à formalização.

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Fonte: IBGE, via GOMES E CRUZ (2015)

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Fonte: IBGE, via GOMES E CRUZ (2015)

Aqui, voltamos novamente ao final de 2014: apesar do alarmismo acerca do baixo crescimento e das contas públicas, as políticas empregatícias mostraram-se bem-sucedidas. Em 2014, a taxa de desemprego era baixíssima, menor tanto que o desemprego em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento.

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Fonte: FMI WEO, via “Por um Brasil Justo e Democrático”

O desemprego, no entanto, tem uma característica preocupante: anos de crescimento econômico e geração de empregos levam paulatinamente as taxas ao pleno emprego. Por vezes, são necessários mais de 5 anos para que o desemprego chegue a patamares razoáveis. No entanto, o aumento do desemprego é rápido. Olhemos os dados atuais: se em 2014 o desemprego estava em 4,8%, o mesmo já fechou o mês de fevereiro com 8,2% (PME). E minhas perspectivas para os próximos meses não são boas. E um dos fatores disso é justamente o ajuste fiscal desnecessário iniciado por Dilma 2, atendendo aos anseios liberais.

Capítulo 4) Conclusão

Aqui estão, portanto, razões porque o PT não foi um “desastre” ou “tragédia” na economia. Alguns erros foram cometidos, sim. Basicamente, não por incompetência dos heterodoxos, mas sim porque seguiu orientações de duas correntes econômicas, muitas vezes conflitantes entre si, e por uma questão eleitoreira para a campanha de 2014 (preços da energia e dos combustíveis). Apenas precisamos que, como nesta publicação, a economia seja discutida com alguma profundidade de dados, ao invés de acreditarmos na neutralidade dos dados econômicos apresentados pelo Wiliam Wack.

PS: Há outras duas coisas que em breve pretendo escrever neste blog e complementariam este artigo:

1) A relação direta que existe entre o “Fora Dilma” e uma das maiores coragens de nossa presidenta, a redução da taxa de juros.

2) Avanços nas políticas sociais para além do Bolsa Família: saúde, educação e políticas urbanas (saneamento, mobilidade e habitação)

Categoria(s): Economia, Escrito por Matheus

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