Crise de representatividade, grupos coesos e voto facultativo

parlamento

Passadas as eleições, gostaria de voltar à temática política. Não, não vou comentar aspectos econômicos ou nenhum outro item de responsabilidade do Executivo Federal. Falarei de nossos parlamentares. E não cairei na mesmice de apresentar um estudo sobre a corrupção destes grupos, sobre os altos salários de nossos deputados e senadores ou outros aspectos semelhantes. Abordarei a questão da real representatividade destes em relação ao povo brasileiro.

Muito se criticou o Decreto de Participação Social, derrubado pelo Congresso. Dizia-se que tirava o poder dos representantes da realidade do povo brasileiro, no caso, os parlamentares. Seria isto verdade? Estes refletem mesmo todos os interesses de nossa sociedade? Basta olhar estes dados, sobre nossos parlamentares, divulgados pelo movimento que defendia a Constituinte Exclusiva:

- Mais de 70% são fazendeiros e empresários (agricultura, construção, educação, saúde, industriais, etc) sendo que maioria da população é composta de trabalhadores e camponeses;
– Há 9% de Mulheres, sendo que as mulheres são metade da população brasileira;
– Há 8,5% de Negros, sendo que 51% dos brasileiros se auto-declaram negros;
– Há menos de 3% de Jovens, sendo que os Jovens (de 16 a 35 anos) representam 40% do eleitorado do Brasil.

Até por isso sou a favor de se fazer uma Reforma Política séria, analisando, fundamentalmente, o sistema de representatividade, o financiamento de campanha e o sistema de voto e coligações (sou a favor de acabar com coligação, soma de tempo de TV, etc)

Mas o que venho esclarecer aqui é minha decepção com a nossa sociedade, cada vez mais apolítica. Falam de política como se fosse apenas uma questão de gente honesta, “amigo da galera” e competente. Claro que isso é importante num político, mas esquecem do principal: política é o meio pelo qual diversos grupos de interesse debatem os temas relevantes para a sociedade, para decidir quais são os de maior legitimidade, quais serão os prioritários na tomada de decisão. Enquanto as pessoas ficam pensando que política é só questão de honestidade, de “ser gente boa” ou de “me dar um emprego ali naquela agência”, ficam alienadas para os interesses que cada político prioriza, porque as decisões destes não são neutras, não afetam todos da mesma forma. Estes representam interesses diferentes e possivelmente conflitantes.

E foi este movimento apolítico, caríssimos, que me entristeceu quando vi Marina com tantos votos (nada contra ela, me parece até uma boa pessoa). Mas Osmarina representava exatamente esse movimento que hoje ganha força no Brasil e na Europa, e que acaba abrindo espaço para grupos extremistas e pode até “preparar o campo” para novos golpes militares.

Quisesse uma MUDANÇA DEMOCRÁTICA de verdade? Votasse em Luciana Genro ou em Eduardo Jorge, por exemplo.

Voto facultativo

Vejo uma grande maioria das pessoas dizendo que o voto deveria ser facultativo. Enxergo isso com críticas: querer colocar o voto como facultativo ia abrir espaço para que apenas grupos mais coesos tivessem seus interesses representados, e aí abriria-se espaço para evangélicos, ruralistas e coronéis. Ou seja: mais Agripinos, Piccianis, Maggis, Bolsonaros e Malafaias. O voto facultativo deixaria nosso sistema muito pior do que agora, OK?

Categoria(s): Escrito por Matheus, Política

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