O Rio (de contrastes) no centro do mundo

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Cristo Redentor, durante a final da Copa do Mundo

Olimpíadas, Copa do Mundo, Copa das Confederações, Jogos Panamericanos, Jornada Mundial da Juventude, Rio+20, TED, Fórum dos BRICS, Prêmio Laureus do esporte. O que estes eventos têm em comum? Nos 10 anos compreendidos entre 2007 e 2016, são eventos que foram, parcial ou integralmente, sediados pelo Rio de Janeiro.

O Rio sempre foi marcado pelos contrastes. Não, não vou cair no lugar comum e comparar as favelas, com saneamento básico e serviços públicos deficientes, aos luxuosíssimos edifícios de Ipanema, Leblon e Lagoa… até porque, com a melhor distribuição de renda no país, a pobreza extrema acaba amenizada, o que é bom… Tampouco vou discutir sobre as alegrias e preocupações dos cariocas, nem sobre os “branquelos” gringos que vêm pra cá e se apaixonam pelas nossas “mulatas”.

Não há dúvidas de que o Rio é hoje a metrópole em maior evidência global. Este texto se propõe a analisar as externalidades positivas e negativas capturadas pela cidade na década 2007-2016.

O Rio mudou? Mudou. E muito. Com Lula no poder, a antiga capital do país passou a receber volumes vultosos de recursos federais, alavancados pela realização dos eventos esportivos e pela expansão da indústria do petróleo. A última vez em que um país sediou, de maneira sequencial, Olimpíadas e Copa do Mundo, foram os “superpotentes” EUA, em 1994 e 1996. As contradições da cidade, no entanto, aparecem em simples acontecimentos dos últimos anos:

- a queda de um edifício no Centro (com 22 vítimas) pouco foi investigada. E o pior: após o acidente, pás mecânicas reviravam escombros de maneira desumana sabe-se lá com qual intuito senão retirar o entulho rapidamente. Ao mesmo tempo, os restos do setor implodido do Hospital do Fundão lá permaneceram por mais de 2 anos, inclusive sob o risco de se transformarem em foco de doenças;

- outros acidentes e incidentes cujas investigações acabaram impunes ou penderam para o lado mais fraco: explosões de bueiros, deslizamentos e desabamentos decorrentes das chuvas e o bondinho de Santa Teresa;

- a composição do próprio PMDB é contraditória: enquanto alguns apoiaram Dilma, outros apoiaram Aécio. Enquanto Picciani é um latifundiário extremamente arrogante (inclusive acusado de manter trabalho escravo em suas fazendas) e Cabral está envolvido em inúmeros escândalos de corrupção, Pezão e Eduardo Paes me parecem um pouco mais sensatos (apesar de todas as críticas que eu tenho a eles).

- há quem diga que de fato a violência nas favelas diminuiu (ainda que os casos de aumento de violência na Rocinha e no Alemão representem exceções à regra). Ao mesmo tempo, a criminalidade nas ruas aumentou – principalmente em regiões mais isoladas e no interior do estado.

O que estes fatos aparentemente desconexos evidenciam?

O modelo de cidade construído ao longo destes anos tem um objetivo bem claro: é uma cidade pensada para os negócios (não que isso seja por si só errado), mas não pensada para as pessoas. Discutamos alguns aspectos:

1) Sobretudo por conta dos preparativos para as Olimpíadas, o Rio de Janeiro faz um rearranjamento de seu sistema de transporte urbano e projetos arquitetônicos: metrô, BRT, VLT, corredores de ônibus, ciclofaixas, revitalização da zona Portuária, Parque Madureira, etc.

Quais as vantagens? De fato teremos transporte mais racionalizado, mais rápido, mais eficiente e um pouco mais confortável. Também há uma tendência de melhora no trânsito. No entanto, qual o único transporte efetivamente de massa entre estes citados? O metrô, que vai ligar Ipanema à Barra da Tijuca, e que passará por bairros habitados por gente de alto poder aquisitivo.

E as desvantagens? A quantidade de baldeações que se terá que fazer aumentará significativamente, o que não é um problema por si só. A questão é que o bilhete único continuará válido para apenas 2 passagens. Ou seja, além do aumento absurdo e inexplicável das tarifas nos últimos anos – principalmente por causa da falta de transparência – o preço pago pelo deslocamento pode dobrar, dependendo do percurso realizado. Sem contar que a opção do transporte sobre rodas em detrimento do transporte sobre trilhos, além de não resolver o problema, revela o jogo de forças político-econômicas que influenciam as decisões.

2) Com a propagação da violência no Alemão e na Rocinha, o modelo de UPP mostra hoje sua verdadeira face. Onde estão instaladas as principais unidades? Em comunidades da Zona Sul, da Tijuca (redondezas do Maracanã) e nos arredores dos aeroportos. Lugares selecionados “estrategicamente”. Como exceção, apenas as UPPs instaladas no Alemão e redondezas, e algumas poucas na Zona Oeste (Cidade de Deus, por exemplo).

Não acho que o modelo seja completamente ruim, mas quais foram os reais resultados?

Nas comunidades, por mais que se ouça que há casos de melhoria do clima de tensão por não haver mais armamento ostensivo por parte dos traficantes, o território continua sendo disputado por parte destes, que querem retomar o poder, e pela polícia. O Alemão, por exemplo, é invadido quase diariamente (basta olhar o twitter do Renê Silva). O Alemão é gigante e deve ter suas especificidades. Mas certamente os serviços públicos não chegaram (o próprio secretário de Segurança, Beltrame, diz que a situação só melhorará quando os serviços chegarem). Houve esforços iniciais para levar estes serviços, porém os mesmos não evoluíram e se perderam com o “engessamento” do sistema. Este é o primeiro problema fundamental.

O outro problema é a polícia (não os policiais). Já perceberam quem morre nessa guerra? Policial, bandido e morador. Todo mundo pobre! Pelas estatísticas, as mortes diminuíram. Mas as estatísticas são forjadas. Muitas mortes de moradores são registradas como “autos de resistência”. A polícia, treinada em um curto espaço de tempo, por um regime militar, tem que se defrontar com diversas situações, que vão desde confrontos com grupos armados até resolver brigas de vizinhos e permissões para festas de 15 anos, por exemplo. Mas o treinamento que receberam não é voltado a isso, não tem esse viés humanista que se fazia necessário. Tem-se então um sério problema pedagógico. Há quem diga que a desmilitarização (que não quer dizer “polícia desarmada”) seria a solução viável.

A sensação de insegurança, nas ruas, aumentou. E nas cidades-satélite do Grande Rio – como na Baixada, Niterói e São Gonçalo – e no interior do estado, aumentam substancialmente os casos de crimes, sobretudo roubos e tráfico de drogas. E o ciclo de violência vai se repetindo e se auto-alimentando. E assim, morrem mais pobres. A população “manda matar”. Os serviços públicos não chegam. E as pessoas se juntam ao tráfico. E mais policiais morrem. E mais pobres morrem. E mais o pobre fica com “ódio do sistema”. E se junta ao “combate”. E morrem mais policiais. E morrem mais pobres. E o ciclo nunca se encerra.

3) Outro aspecto bastante característico é a política habitacional.

Primeiramente, falando da revitalização da Zona Portuária: trata-se de uma zona histórica há anos abandonada pelo poder público. Sua revitalização de fato se fazia necessária. Prédios empresariais? ok. O dinamismo econômico é importante. Mas porque ocupar a região apenas com eles, sendo que vários dos terrenos que ali estavam pertenciam ao poder público? Porque não ceder parte destes para o “Minha Casa Minha Vida”? Isto impactaria em uma série de fatores, como redução do tempo de deslocamento e da migração pendular, povoaria a região com moradores locais e ainda reduziria o déficit habitacional.

Mas como funcionam as políticas de habitação no Rio? Os preços e medidas dos apartamentos são regulados pelo Programa Minha Casa Minha Vida, que especifica preços máximos e tamanhos mínimos. O que as construtoras fazem, então? Constroem apartamentos com o menor tamanho possível e nos subúrbios (construtoras têm uma gama de terrenos pela cidade e certamente usarão os menos valiosos para os conjuntos do Programa). O que acontece, então, nestes locais? Além dos serviços públicos possivelmente inexistentes, gangues tomam o controle das regiões por causa da ausência do poder público (por isso tantas milícias controlando habitações do MCMV). E a falta de serviços básicos (e o elevado tempo de transporte até o trabalho) tendem a fazer, por exemplo, com que muitos pais não possam dar a devida atenção a seus filhos, o que pode impactar educação e segurança pública no longo prazo.

Conclusões

O principal aspecto, que creio que vocês já tenham percebido, é que os resultados desse processo de “holofotização” do Rio culmina, sobretudo, em uma cidade mais excludente. E se por um lado a Zona Sul e o Centro ficam mais bonitos e mais frequentados por turistas, mais pessoas ficam excluídas deste “pedacinho” da cidade Rio. Sem emprego ou com baixos salários (e os elevados custos da cidade), o cidadão comum fica impossibilitado de se valer das opções de lazer disponíveis.

A este processo pode-se chamar de perda de “identidade da cidade”. O Maracanã já não é mais frequentado pelo torcedor médio que sempre o caracterizou. Bares, restaurantes e lojas tradicionais fecharam as portas. No entanto, ao menos a cidade ainda se mantém caracterizada pelos espaços abertos.

No fim das contas, as externalidades positivas (crescimento econômico, sustentabilidade, fortalecimento da indústria criativa e alguma melhoria no sistema de transporte) são superadas pelas externalidades negativas analisadas ao longo do texto. Se por um lado o dinamismo econômico-midiático da cidade tende a aumentar o seu PIB, por outro a qualidade dos serviços públicos não tende a crescer no mesmo ritmo (principalmente quando se analisa o cenário de abundância de recursos dos últimos anos).

O “novo Rio” não foi pensado fundamentalmente para as pessoas (e os negócios se beneficiariam a partir daí). A cidade foi pensada fundamentalmente para os negócios (e as pessoas se beneficiarão a partir daí). Esta ordem de prioridades, diante dos argumentos discutidos, nos faz afirmar que a cidade que poderia viver a Década de Ouro provavelmente encerrará o ano de 2016 sentindo que, na verdade, viveu uma Década Perdida. E alguns problemas já críticos hoje, como a violência, podem se agravar.

Categoria(s): Escrito por Matheus, Política, Serviços Públicos, Sociologia

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