Rótulos

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Fiz ótimos amigos na UFF. Divergências à parte, formamos um grupo bastante unido. Sempre nos reunimos em aniversários, datas comemorativas, happy hours e no final de ano, quando participamos de um amigo oculto.

Eu nunca gostei muito de escolher os presentes que queria receber. Mas dessa vez acabei optando por listar uma série de livros que me interessavam. Ganhei de presente o livro “O Estado Empreendedor”, de Mariana Mazzucato. Logo começaram as provocações: “seu comunista” foi a principal delas. Rótulos, sempre eles. E essa mania que as pessoas têm, de imaginar que eventuais características de um grupo são inerentes a todos seus participantes.

Todos já generalizamos. E erramos.

Deveria ser simples, às vezes, entender que:

- nem todas as pessoas de esquerda são abortistas;

- nem todas as pessoas de direita são a favor de “muros” xenófobos;

- nem todas as pessoas que criticam o capitalismo são “comunistas”;

- nem todas as pessoas que frequentam uma certa religião têm conduta ilibada;

- nem todos os que praticam o Islã são terroristas;

Estes são apenas alguns exemplos. Costumo ouvir que sou “petista” e “comunista” e gostaria de explicar os erros de meus interlocutores:

1) Petista

Sempre que ouço a expressão “petista”, logo a associo àqueles que são filiados ao PT (Partido dos Trabalhadores), coisa que não sou. Como muitos outros que defendem os governos petistas não o são.

O primeiro ponto é que defender algumas (ou muitas) políticas implementadas por este partido não faz com que você concorde com tudo que o partido faz ou deixa de fazer.

O segundo ponto é que tenho inúmeras críticas ao partido. As mais recentes, à política econômica de Dilma 2. Mas também fui bastante crítico ao PT 2003-2014, inclusive neste espaço.

O terceiro ponto a ser elucidado é que, nas últimas eleições, excetuando-se a Dilma, eu não votei em nenhum outro candidato do PT. Votei em deputados (ambos eleitos) do PSOL, votei em um candidato a governador pelo PSOL (com todas as críticas de inviabilidade a alguns pontos de seu projeto), e em um candidato a senador pelo PSB.

Portanto, caríssimos, não sou “petista”.

2) Comunista

Outro “apelido” que muito ouço é “comunista”. Como se o fato de ter algumas tendências à esquerda fizesse de mim um comunista.

Diante de tamanho mal-entendido, faz-se antes necessário explicar algumas coisas:

- tanto o comunismo como o socialismo têm diversas correntes. Eu precisaria saber em qual estão “me enquadrando”;

- o próprio Marx dizia  que o comunismo seria o estágio último e utópico do desenvolvimento humano, ou seja, o comunismo nunca consolidou-se de fato.

Eu não sou comunista. De fato, como muito se fala, o comunismo tem inúmeros defeitos e impediria alguns progressos que o capitalismo nos trouxe.

Mas também o capitalismo de mercado é totalmente injusto e cruel, como inúmeras vezes discutido.

Sendo assim, me classificaria como defensor do Estado de Bem-Estar Social, como vigora nos países da Europa Setentrional: Noruega, Finlândia, Islândia, Suécia, etc.

Cabe ressaltar, no entanto, a importância do comunismo para o surgimento do modelo que defendo: a ameaça comunista, no pós-guerra, contribuiu para a formulação do consenso, em alguns países capitalistas, de que era necessário se estabelecer um Estado de Bem-Estar Social, com direitos mínimos que garantissem a civilidade e a dignidade das pessoas.

Obs: A todos que se manifestam, politicamente, mais à esquerda,  há uma série de outros termos-chave com os quais já estamos acostumados: Foro de São Paulo, aborto, Cuba, intervenção estatal, troca de sexo em crianças menores de idade, PT, Bolsa Família, bolivarianismo, aparelhamento, golpe comunista, Venezuela, Jean Wyllys, Mais Médicos, petrolão, dentre outros. Sempre que ouço uma frase que contenha pelo menos 3 destes termos, sinto que a pessoa com que falo foi totalmente manipulada pelos discursos da direita. Nem levo a discussão à frente.

Categoria(s): Escrito por Matheus, Estilo de Vida, Política

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