Sobre bandidos, vida e oportunidades

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Se há um debate bastante amplo neste país, este engloba a violência e o tratamento que deve ser dado àqueles que cometem delitos. No Rio de Janeiro, não é raro ouvir casos de bandidos, traficantes, supostos bandidos e moradores da favela sendo tratados de maneira brutal pela polícia. Diversos lamentáveis casos recentes (noticiados) podem ser lembrados: o do adolescente que foi acorrentado a um poste com uma tranca de ferro e cruelmente agredido por populares, o caso de 6 adolescentes inocentes que foram brutalmente mortos pela polícia como vingança à morte de uma policial em alguma operação que não me lembro, a morte de vários jovens numa operação na favela da Maré e o caso de tortura e desaparecimento do pedreiro Amarildo, além dos casos de DG, Cláudia e do menino assassinado no Sumaré.

Antes que me acusem de estar defendendo apenas um lado, respondo-lhes que não. Estou criticando o sistema: o ódio e a repressão culminam em mais violência e ódio contra a nossa polícia, resultando também na morte de muitos policiais.

 Mas, enfim, o que há em comum entre as vítimas policiais? Em sua grande maioria, são jovens, negros e pobres. Infelizmente, se olharmos os nossos livros de história, veremos que fomos um dos últimos países a abolir a escravidão (apesar dela ainda persistir de outras formas), como um amigo meu uma vez ressaltou. Tal segregação, no entanto, ainda permanece na mente de nossa sociedade.

Não podemos confiar numa polícia de “elite” que canta orgulhosamente que “sua missão é deixar corpo no chão”. Onde está a vida? O ser humano, galera? Talvez a maioria discorde de mim… O pensamento do “olho por olho” já está enraizado na cabeça da população. Nossa grande família Sheherazade acha mesmo que bandido bom é bandido morto.

Vejam bem: acho que existe uma grande diferença entre um batedor de carteira e um assassino chefe do tráfico. Estes não podem ser tratados da mesma maneira. Se a pessoa rouba, tem que ser, de alguma maneira socialmente justa, punida por isso, e reeducada, mas jamais tratada com violência. Se a pessoa mata, deve ter uma pena mais severa. O sistema brasileiro conta com sociólogos, educadores, juristas, etc, que analisam as situações individualmente. Não cabe aos cidadãos decidir quem deve ser espancado, torturado ou morto.

Pode até ser que certas pessoas já nasçam com uma tendência mais “maligna”. Uma série de fatores, como as circunstâncias sociais em que se vive, o ethos da pessoa e suas referências e convivências influenciam a formação da mentalidade desta. Mas este texto acerca dos sistemas prisional e socioeducativo no país apontam que o índice nacional de reincidência no primeiro é de 70%, e no segundo é de 20%. Estes dados, por si sós, já ajudam a explicar um pouco da influência de um ambiente violento sobre o ódio que as pessoas podem vir a ter. Vários internos da Fundação Casa, por exemplo, se classificaram para as finais da Olimpíada Brasileira de Matemática.

Penso num exemplo que pode ajudar a elucidar a situação: imagine-se com 8 anos de idade, sem conhecer seu pai… quando sua avó finalmente resolve lhe contar a verdade, você descobre que seu pai foi torturado por playboys de classe média aos 15 anos de idade (supondo que você seja filho do jovem acorrentado), que a polícia o matou alguns anos depois, e que por isso sua mãe se viciou em crack, abandonou-o com sua avó e nunca mais procurou a família. Você vai procurar estudar para passar num vestibular, num curso técnico, num concurso, e levar a vida que a sociedade julga como “normal”? Ou vai correr atrás da sua história de vida? Se você não entrar para uma Igreja ou algum grupo sociocultural/esportivo (o Afroreggae é um excelente exemplo), a tendência é que seu destino já esteja traçado: você quererá a vingança pela destruição da sua família (aliás, o mesmo sentimento de vingança dos marginais que torturaram seu pai, com uma diferença… a razão pra eles terem feito isso foi um iphone, a sua foi a perda da sua família). Um caso real é o de Sandro, o sequestrador do ônibus 174. Órfão de pai, sua mãe fora assassinada por traficantes de drogas em sua frente, quando ainda era criança. Quando sua avó faleceu, Sandro foi morar na rua, onde perdeu 8 amigos na chacina da Candelária. Sua história de vida terminou da maneira trágica que já conhecemos. Seu caso evidencia que há uma enorme distância de realidade entre quem vive a situação da violência e da repressão no dia-a-dia e a maioria de vocês que leem esta publicação.

Se um jovem infrator não frequenta a Pedra do Sal ou o Baile do Bené com o intuito de curtir uma boa música black, conversando com seus amigos sobre seu emprego e suas pretendentes, não é porque ele tenha um delírio malévolo de assaltar pessoas, fruto de uma natureza mais maligna ou menos humana que qualquer pessoa. Isto ocorre porque ainda não existe espaço objetivo pra dignidade de todos no projeto excludente, racista e violento do país em que vivemos. Apesar das inquestionáveis melhorias, o nosso projeto de concentração de renda segue gerando problemas sociais cujas causas as pessoas parecem não querer enxergar. E nossos poderes Legislativo, Judiciário, Empresarial e Militar parecem incapazes de resolver a situação. Aliás, só a pioram.

Na medida em que mais civis tenderem à extrema-direita e aderirem a seus valores e métodos, como o olho por olho, estaremos mais e mais próximos de um sistema nazi-fascista enraizado na mentalidade de alguns. A solução para a violência depende de diversos fatores, como repensar o modelo de polícia atual e promover uma cultura de integração que acabe com o preconceito ainda pujante. É uma pena que a bela Miss Brasil receba críticas por ser nordestina, que os pobres sejam julgados como “burros” nas redes sociais somente porque votam em Dilma, e que mulheres ainda sofram com discursos machistas e autoritários. Negros, pobres, nordestinos, homossexuais, mulheres, maconheiros e até ateus seguem sendo vítimas de manifestações por vezes odiosas de nossa sociedade.  É, brasileiros, nós ainda precisamos mudar muita coisa em nós mesmos ao invés de decidirmos sobre a vida do outro.

Categoria(s): Escrito por Matheus, Estilo de Vida, Serviços Públicos, Sociologia

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