Por que a terceirização de atividades-fim não é boa nem para as empresas? E por que elas, mesmo assim, continuam a realizá-la?

Este espaço é aberto à contribuição de outras pessoas. O texto a seguir é de autoria de meu amigo Gustavo Barreto, engenheiro de Telecomunicações e Mestre em Engenharia de Produção na área de Trabalho.

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Esse texto busca abordar a terceirização da atividade-fim pelo ponto de vista empresarial. Certamente os efeitos negativos aos trabalhadores são muito mais importantes do que os sentidos pelas corporações, essa abordagem só foi usada pela existência de vários ótimos textos na internet abordando as más consequências aos empregados pela aprovação da lei, como este, do professor Ricardo Antunes, e o do professor Ruy Braga.

Uma pergunta sempre me vem à cabeça quando o assunto é terceirização de atividades-fim: porque uma empresa contrataria uma terceirizada para realizar melhor um serviço que é a atividade para qual essa empresa existe? Por exemplo, pra que a Coca-Cola vai terceirizar a produção de refrigerante, para uma empresa que faça refrigerantes melhor do que ela? Seria um atestado de incompetência sem prazo de validade definido?

Mas vamos supor que uma empresa especializada em fazer Coca-Cola possa fazer Coca-Cola melhor que a Coca-Cola; ou que ela possa dominar a produção de uma parte do processo, como fazer xarope do refrigerante, sendo capaz de se especializar mais agilmente do que a Coca-Cola, fazendo um refrigerante melhor, mais barato e satisfazendo todos os consumidores, inclusive aqueles que foram demitidos da Coca-Cola para serem recontratados pela terceirizada, ganhando menos.

Para melhor analisar a terceirização da atividade fim, tomemos o exemplo de uma concessionária de energia elétrica, algo mais próximo da nossa realidade.

Sendo bem específico a esse caso, pois a discussão é ampla e eu não quero me embaralhar nos argumentos dela, o argumento de que uma terceirizada poderia ser mais capacitada do que a empresa contratante é bastante questionável. A concessionária do nosso exemplo tem melhores condições de investir em desenvolvimento de pessoal e melhorias de processos do que suas terceirizadas, pela garantia de receita que possui. Já as suas terceirizadas não disfrutam dessa garantia de receita e trabalham com margens muito estreitas, estando entre salários abaixo do aceitável, dos funcionários “primeirizados”, e salários muito abaixo do aceitável, dos funcionários terceirizados.

Suponhamos que, mesmo diante de todas essas adversidades, a empresa terceirizada seja mais competente que a contratante para realizar a atividade-fim desta. A concessionária perderia toda a expertise a partir do momento que a terceirizada encerrasse seu contrato. A transmissão de conhecimento fica comprometida nos dois sentidos: por um lado, a empresa terceirizada iria transmitir o mínimo, dado que a partir do momento que a contratante absorva seu conhecimento, ela se torna descartável; pelo outro, os funcionários da contratante são hostis aos terceirizados por medo de perderem seus empregos em uma intensificação da terceirização na empresa e por considerarem os terceirizados como funcionários de menor nível.

Uma justificativa mais razoável para a terceirização de atividades-fim seria a busca da empresa contratante, não por uma melhoria na qualidade dos serviços, mas sim por um corte de custos através da flexibilização nas condições de trabalho, já que ela pode desmobilizar os trabalhadores terceirizados de graça nos finais de contratos com as terceirizadas em vez de pagar rescisões contratuais. A isso, soma-se o fato de poder expor esses trabalhadores a condições de trabalho mais precárias do ponto de vista de expediente (amplificados, sem necessidade de pagar banco de horas ou horas-extra), benefícios (vale alimentação, plano de saúde, que tem que ser extensivos a todos os funcionários da empresa, mas não os terceirizados) e segurança (a concessionária do exemplo tem por costume colocar empregados terceirizados em atividades como instalação de clientes e manutenção da rede aérea, com alto risco de acidentes). A segurança é um item que merece destaque: terceirizar livra a empresa dos gastos indenizatórios e desgaste de imagem com acidentes de trabalho. E a empresa terceirizada tem que aumentar e muito as suas margens, já que absorve esses riscos. Para tal ela pode achatar salários, causando fugas de cérebros para setores mais atraentes como o financeiro, onde o risco da terceirização é menor, reduzindo, em última análise, a oferta de pessoal capacitado no setor em médio/longo prazo. As pesquisas que indicam menor remuneração entre terceirizados podem ser um indício desse expediente. A necessidade de expansão das margens é mais um motivo para considerarmos improváveis investimentos por parte das terceirizadas em capacitação de sua mão de obra.

Mas se existem tantos riscos à produtividade das empresas no longo prazo, porque muitas querem seguir o modelo de terceirização? Porque o longo prazo não importa no resultado financeiro do trimestre. Talvez as empresas estejam mais preocupadas em realizar resultados financeiros bons através de serviços em vez de prestar bons serviços para atingir resultados financeiros satisfatórios.

PS: para ilustrar algumas das principais desvantagens da terceirização, segue quadro explicativo.

Fonte: Reprodução - Margarida Salomão (fan page do Facebook)

Fonte: Reprodução – Deputada Margarida Salomão (fan page do Facebook)

Categoria(s): Economia, Outros autores, Sociologia

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