Trabalho, saúde e consumismo: o terceiro de três tripés

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Sou muito grato à UFF pela formação generalista que ela me proporcionou. Acho que, apesar da melhor infraestrutura de algumas faculdades particulares, as faculdades públicas trazem uma visão social e humanista que certamente não se faz presente nas grandes escolas de negócios (tampouco nos grandes negócios de escolas). Na formação de engenheiros, uma abordagem bastante enfatizada é um conceito do desenvolvimento sustentável, que enuncia a necessidade de equilíbrio entre 3 vertentes: Social, Econômica e Ambiental. Esta é uma condição fundamental para que se satisfaça um ciclo virtuoso onde as condições dignas de vida, o desgaste do planeta e o desenvolvimento econômico convivam num mesmo espaço. Em qualquer projeto ou empreendimento, deve-se garantir um equilíbrio dos três aspectos.

Deixe-me detalhar um pouco melhor o conceito acima. É simples: na construção de uma hidrelétrica (Belo Monte, por exemplo), deve-se contornar os prejuízos ambientais e sociais gerados por ela. Para não sair do caso Belo Monte, sabe-se que a Usina construída será a fio d’água, ou seja, não haverá reservatório. Se houvesse reservatório, seria possível aumentar a produção de energia no período de estiagem, mas, por outro lado, a área inundada seria muito maior, gerando maiores impactos para o ambiente e possivelmente tornando necessário realocar comunidades indígenas no entorno. Além disso, o “estouro populacional” da cidade de Altamira deve ser contornado com a criação de novos hospitais, escolas e obras de saneamento e mobilidade urbana, além de medidas de combate à violência, à prostituição e à especulação imobiliária. Trata-se, portanto, da necessidade de encontrar um equilíbrio ótimo entre as 3 vertentes. Ao mesmo tempo, a criação de uma unidade de conservação, por exemplo, numa região próxima a um complexo portuário, pode não ser economicamente viável, gerando prejuízos econômicos ao entorno e excluindo a possibilidade de milhares de novos empregos. Este é o primeiro dos três tripés, amplamente discutido e referência inicial para este texto.

A vantagem central de se trabalhar com escrita é a flexibilidade. Você vai onde bem quiser, no horário em que bem entender, sem ser incomodado por isso. Muitos se chateiam em ter que passar grande parte de seu tempo preso numa sala de escritório, frente à tela do computador. Normalmente, nos tempos livres, as pessoas externam seus desejos em 3 tipos de atividades diferentes: as sociais e de lazer, as físicas e as intelectuais/culturais. Este é o segundo tripé, com o qual não pretendo me alongar muito. Basicamente, é uma abordagem do equilíbrio entre as atividades realizadas extra-trabalho.

Agora, entremos no terceiro tripé: após passar por um excepcional período de estudos (mestrado e alguns projetos pessoais), tinha optado por voltar ao mercado de trabalho. O que confirmei naquele momento refletia a impressão que sempre tive: por mais que a pessoa tenha facilidade, goste do seu ambiente de trabalho, é raro encontrar alguém que não reclame de sua labuta. Neste aspecto, pretendo abordar os efeitos do trabalho sobre 2 aspectos, a saúde e o consumismo, formando o tripé de discussão central deste texto: trabalho, saúde e consumismo.

A pressão competitiva que as firmas impõem, umas às outras, e consequentemente, a seus funcionários, faz com que as pessoas se cobrem cada vez mais, sobretudo no que se refere à qualidade e prazo dos trabalhos entregues. Cada vez mais, torna-se necessário atender a uma demanda mais rapidamente (antes que seus concorrentes talvez o façam), sem espaço para deslizes.

O estresse pode afetar diversos fatores na vida das pessoas, começando pela convivência com os próximos. É muito comum observar pessoas que se aparentam sempre zangadas, mal-humoradas, que nunca desejam um simples “bom dia” ao motorista do ônibus. Há diversos outros problemas causados pelo estresse, como apontam as pesquisas: pressão alta, falta de apetite, falta de sono e problemas gástricos. Sem contar o risco de envolvimento em acidentes de trânsito.

O primeiro ponto deste texto é a saúde. Tenho observado que, quando as pessoas começam a ficar preocupadas/estressadas com o seu ritmo de trabalho, começam a se alimentar mal: sanduíches, doces, sal, álcool. Este padrão de alimentação pode desencadear uma série de problemas: não sei se a relação é direta, tampouco cheguei a ler sobre isso, mas acredito que estresse e má alimentação tendem a aumentar a incidência de doenças como diabetes, problemas cardíacos e câncer.

Vou abrir este outro parágrafo apenas para situar-lhes: há 2 classificações básicas para as doenças. Estas podem ser agudas (aquelas em que a pessoa ou sara ou morre) ou crônicas (que demandam tratamento contínuo e geralmente são incuráveis). A incidência de doenças agudas, como gripe, pneumonia, cólera e sarampo, diminui com as melhores condições de saneamento, medicação e vacinas. Entre as doenças crônicas, cabe destacar o câncer, o diabetes e a hipertensão, que apesar de também sofrerem influência de fatores genéticos, podem aumentar com os problemas de alimentação e estresse supracitados.

De acordo com pesquisas de Hsiao e Heller, há um fenômeno global de aumento na incidência de doenças crônicas. Sinto que um dos alentos dos cidadãos, em geral, é que, devido ao “ótimo trabalho” que têm, dispõem de plano de saúde e “não precisarão passar pelo SUS”, sem reparar que seu plano de saúde é mais comumente usado para tratar doenças agudas (obviamente, acompanhamentos gestacionais, internações e outras vantagens dos planos de saúde são de fato louváveis).

O segundo ponto deste texto é o consumismo. Cada vez mais tenho a impressão de que, ao contrário do consumo, que de acordo com a teoria econômica se relaciona diretamente com necessidade e utilidade, o consumismo não tem qualquer relação com esta. Tenho a impressão de que este sentimento de posse nada mais é que uma válvula de escape encontrada pelas pessoas para “esquecer os problemas decorrentes do trabalho”. Desta maneira, entra-se num círculo vicioso de consumo-trabalho-consumo-trabalho. Há uma série de artigos, vídeos e discussões sobre o tema. Gosto muito do vídeo “A História das Coisas” e deste artigo do Papo de Homem.

Peço que observem bem os “estressadinhos” de sua empresa. Enquanto você talvez use seu tempo livre para ler um blog, um portal de notícias ou algum conteúdo de lazer, as janelas de internet abertas nos computadores de seus colegas são sempre as mesmas: Peixe Urbano, Privalia, Americanas, sites de viagens, de fabricantes de automóveis, de restaurantes chiques, fabricantes de roupas, relógios, etc… Ou de bancos. Ou seja, o dinheiro e os produtos que consumirão com o salário recebido são de fato a única motivação que parecem ter para trabalhar. Para dar condições dignas de vida a sua família, no entanto, muitas vezes é necessário muito menos do que se recebe. Seria possível obter tal renda trabalhando por meio expediente, em outros segmentos ou outras empresas, sobrando-lhe muito mais tempo para atividades mais prazerosas. Mas, tem gente que prefere criar todas as condições necessárias pra desenvolver uma doença crônica num futuro não muito distante. Afinal, eles têm plano de saúde.

Categoria(s): Escrito por Matheus, Estilo de Vida, Sociologia

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